O Plano de lutas que a UNEGRO adotará no triênio
2007-2010 será pautado em reivindicações
chaves, construídas coletivamente pelo movimento negro
nacional para contribuir com o avanço da agenda do
governo federal e, também, com governos estaduais e
municipais. Muitas das propostas aqui apresentadas encontram-se
no documento elaborado pelas entidades negras que organizaram
a Marcha Zumbi + 10 em 22 de dezembro de 2005 e que foi entregue
ao presidente da república e do Plano de lutas gerais
da que consta na carta da Coordenação de Movimentos
Sociais, elaborada em novembro de 2006. A UNEGRO é
parte dessas histórias e dessas construções,
e promoverá esforços no sentido de ver realizada
uma agenda arrojada de políticas públicas de
combate ao racismo no segundo mandato do presidente Lula em
todo o país e de outras políticas gerais e estruturais,
orientadas para a mudança do modelo econômico
e para a distribuição de renda. O nosso papel
é manter acesa a chama da pressão política
para que elas de fato saiam do papel e alcancem a vida prática
da maioria da população negra. Um país
livre de racismo é bom para todo o seu povo.
O nosso plano de lutas, também constará de
um conjunto de propostas que colaborem com o crescimento,
a consolidação e o fortalecimento institucional
da entidade em todo o Brasil.
Políticas de Estado
1. Lutar para que o Estado brasileiro reconheça sua
imensa dívida histórica junto às populações
negras e indígenas pelos séculos de massacre,
escravização e descaso perante o destino destes
contingentes.
2. Que o Estado brasileiro reconheça como crime contra
a humanidade o tráfico de escravos, as ações
de escravização de indígenas e negros
e o sistema escravista praticado em nosso território.
3. Que o Estado brasileiro reconheça sua dívida
histórica para com os líderes e seguidores das
religiões de matriz africana, pelos séculos
de perseguição perpetrados a estas formas de
manifestação religiosa, seus territórios
e objetos sagrados e aos seus adeptos. Neste sentido, o Estado
brasileiro deverá envidar todos os esforços
no sentido da superação de todos os de estereótipos
que ainda perseguem estas religiões, bem como conferir
às mesmas os idênticos direitos que são
dados às demais religiões.
4. Que o Estado brasileiro e suas instituições
considerem que o patrimônio cultural branco, negro e
indígena foram igualmente fundamentais à formação
da moderna cultura brasileira.
5. – Que as ações do poder público,
sem interferir na autonomia dos movimentos sociais, sejam
desenvolvidas no sentido do fortalecimento das organizações
representativas dos setores historicamente discriminados e
marginalizados, como forma de qualificar e consolidar a democracia.
6. – Que o poder público seja responsável
pela produção e disseminação de
indicadores demográficos e sociais sobre os grupos
vitimados pelas desigualdades dês raciais e de gênero.
7. – Que o Estado brasileiro assuma oficialmente ser
sua, a responsabilidade pela retirada da população
jovem, residente nas áreas de favelas, periferias e
das situações de risco e conflitos sociais em
que atualmente se encontram.
8. A superação das desigualdades raciais,
de gênero e de brutal desigualdades de classe sociais
passa a ser assumida como um compromisso estratégico
do Estado brasileiro.
Políticas de Promoção da Cidadania.
Estabelecer a luta para:
9. Consolidar e fortalecer as ações de combate
à pobreza e à fome no Brasil. Incorporando,
cada vez mais, a perspectiva de gênero e de raça
no interior das ações de governo orientadas
neste sentido.
10. A aprovação de leis federais específicas
de combate ao racismo, que poderão impulsionar a realização
de um conjunto de políticas públicas de combate
ao racismo em todo o território nacional, através
de instituições públicas e privadas que
compõem o aparato do Estado brasileiro.
11. Ampliar a participação das organizações
negras nas instâncias decisórias dos programas
de combate à fome, no Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social e demais órgãos gestores e de controle
social da administração pública.
12. garantir a priorização dos investimentos
na infra-estrutura urbana e rural, nos territórios
habitados com mais intensidade pela população
afrodescendente e indígena.
Políticas Para o Mercado de Trabalho. Lutar
Por:
13. Abertura de linhas de créditos especiais para
empreendedores ligados aos grupos historicamente discriminados.
14. Efetiva implantação da convenção
111 da OIT, que determina a realização de políticas
de à discriminação em matéria
de emprego e profissão.
15. Estímulos por parte do poder público para
que as empresas privadas e cooperativas adotem políticas
de diversidade do corpo de funcionários.
16. Estabelecimento na esfera do poder público de
mecanismos contratuais licitatórios que obriguem às
empresas a contratarem negros para funções de
planejamento, gerenciamento e chefia; corrigir desequilíbrios
salariais entre negros e brancos homens e mulheres no exercício
de ocupações iguais.
17. Fortalecimento das ações de capacitação
da força de trabalho, sob um recorte de raça
e gênero, visando ampliar o grau de empregabilidade
de negros, indígenas e mulheres.
18. - Adoção de políticas de ação
afirmativa, por parte do Estado, na formação
do corpo diplomático brasileiro, da alta hierarquia
das forças armadas e nos escalões mais elevadas
de chefia dos três níveis de governo.
19. - Política de reforma agrária, igualmente
incorporando em seu interior as perspectivas de raça
e gênero.
Políticas Para o Ensino e Pesquisa. Estabelecer
a luta para que :
20. O Plano Nacional de Desenvolvimento da Educação
e a efetivação do FUNDEB representem de fato
uma revolução no ensino público de primeiro
e segundo graus, mediante a valorização do magistério,
o incremento da formação profissional dos profissionais
da educação, o aparelhamento das escolas, o
fortalecimento dos programas de assistência estudantil
e da qualidade da merenda escolar e mudança dos parâmetros
curriculares visando tornar os conteúdos programáticos
mais interessantes e próximos à realidade dos
estudantes.
21. Seja efetivada a universalização da rede
de ensino para a população brasileira entre
os 03 aos 25 anos, tornando obrigatório que toda essa
população tenha de cursar pelo menos da pré-escola
até o ensino médio (rede regular de ensino ou
escolas técnicas).
22. Seja criado um Programa Nacional de Combate ao Racismo
e ao Preconceito Racial no ambiente escolar, visando à
sensibilização dos profissionais do ensino e
dos estudantes a este respeito e a efetiva implantação
e universalização da Lei 10.639, com arrojada
estratégia de divulgação nacional.
23. Seja imediatamente implantada a política de cotas
para negros, indígenas e estudantes da rede pública
no ingresso às universidades públicas federais,
estaduais e nas universidades privadas.
24. Seja realizado programa especial de incentivo ao ingresso
de negros e indígenas em pós-graduações.
Aumento das verbas destinadas às pesquisas sobre as
desigualdades raciais, étnicas e de gênero.
25. Sejam criadas linhas de financiamento junto aos órgãos
de fomento à pesquisa no Brasil para estudos e pesquisas
sobre as relações raciais e as seqüelas
da discriminação racial sobre a população
negra (e outros grupos discriminados) de nosso país.
Políticas Para a Área da Saúde.
Lutar por:
26. Fortalecimento e ampliação do Sistema Único
de Saúde, inclusive do ponto de vista financeiro, visando
tornar os serviços públicos de saúde
efetivamente universais para toda população
brasileira.
27. Desenvolvimento e/ou fortalecimento, no interior do
SUS, de programas de intervenção sobre as principais
doenças prevalentes na população negra,
tal como anemia falciforme, hipertensão arterial ou
diabetes mellitus.
28. Consolidação dos sistemas de registros
de notificação de casos de nascimento, óbitos
e agravos notificados (SIM/DATASUS, SINASC/DATASUS, SINAN/DATASUS),
visando sua universalização.
29. Definição do elevado número de
homicídios de pessoas de maioria negra no Brasil como
um problema social e de saúde pública, retirando
este debate de seu estrito caráter militar e repressivo.
30. Continuidade das ações que levem à
redução da mortalidade infantil em todo o país,
incluindo a progressiva eliminação das desigualdades
raciais neste indicador até o ano de 2015.
31. Progressiva redução dos hiatos nas expectativas
de vida dos grupos que são vítimas das desigualdades
raciais e sociais na população brasileira até
sua completa eliminação até o ano de
2030.
32. Aumento do volume de recursos para a saúde destinados
às reservas indígenas, até que se atinja,
nestes locais, à média per capita de todo o
país.
Direitos da Mulher. Lutar por:
33. Consolidação do processo de Implementação
do Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade
Materna e Neonatal. Introdução da dimensão
racial nessa política pública, visando à
eliminação das desigualdades raciais nas taxas
de mortalidade materna.
34. Combate à violência que recai sobre a mulher,
especialmente a violência doméstica, mediante
ações de sensibilização e mediante
a efetiva implantação da Lei Maria da Penha.
35. Ampliação dos programas de prevenção
do HIV/AIDS. Ações especiais neste sentido junto
à população feminina, pobre e negra.
36. Mudança da imagem da mulher negra na mídia,
visando à superação de antigos estereótipos
e à valorização de seus papéis
como agente crítica e participativa em nossa sociedade.
37. Políticas de promoção da capacidade
gerencial, técnica e profissional das mulheres negras
visando à paulatina redução do peso do
emprego doméstico junto à população
ocupada deste contingente.
38. Estímulo à profissionalização
da mulher trabalhadora rural, a facilitação
de seu acesso à previdência rural e aos programas
de reforma agrária.
Políticas Públicas para a Juventude
Negra. Lutar para:
39. Garantir a não redução da maioridade
penal.
40. O estabelecimento de um amplo programa de cotas nas
universidades e no mercado de trabalho, tendo os jovens como
demanda preferencial.
41. Que sejam criados programas de educação
sexual com vistas a evitar a gravidez precoce.
42. Que sejam realizados programas emergenciais e ações
estruturais junto às populações jovens
das favelas e periferias, capazes de fomentar a continuidade
dos estudos, a profissionalização e o desenvolvimento
artístico e profissional, visando resgatá-las
do desalento educacional e profissional, bem como do narcotráfico,
do crime organizado.
43. Que sejam identificados e realizados investimentos em
jovens talentos para serem incluídos em programas de
tecnologia de ponta.
44. A Criação de programas de bolsas de capacitação
para os chamados esportes de elite como automobilismo, tênis,
hipismo, para que as habilidades esportivas da juventude negra
possam ser desenvolvidas em outras áreas do desporto
que dependem de equipamentos caros que, em geral, os jovens
negros, por estarem em mais larga escala submetidos à
situações de pobreza não têm condições
de se auto-financiar.
Direitos Humanos e Combate ao Racismo. Lutar por:
45. Reforma do poder judiciário, visando torná-lo
mais ágil, acessível à população
mais pobre e transparente para toda sociedade brasileira.
46. Abertura de um ciclo de seminários nacionais
visando à consolidação da jurisprudência
no que tange aos julgamentos referentes aos crimes de racismo
e de preconceito racial.
47. Sensibilização dos operadores de justiça
no que tange à interpretação dos delitos
racialmente orientados, bem como perante o caráter
hediondo e nefasto dos comportamentos discriminatórios.
48. Imediato fim da tortura nas delegacias, penitenciárias
e unidades prisionais, principalmente de jovens, através
de efetiva aplicação da Lei nº 9.455, de
7/4/1997.
49. Programas de formação policial, com vistas
à redução (no limite à sua quase
eliminação) das mortes causadas pelas abordagens
e atuações inadequadas. Investir na superação
do preconceito e da discriminação por parte
dos servidores públlicos responsáveis por prover
a segurança de todos e cidadãos e cidadãs.
50. Introdução nos ciclos básicos dos
cursos de direito, cadeiras sobre a legislação
anti-racista e sobre a história das relações
raciais no Mundo e no Brasil.
51. Aumento do percentual de negros, indígenas e
mulheres no total dos operadores da justiça, especialmente
na magistratura.
52. Criação de Delegacias especializadas em
crimes de ordem étnica e racial.
53. Aprofundamento das ações de combate e
erradicação do trabalho escravo em todo o país.
Comunidades Remanescentes de Quilombos. Lutar por:
54. Garantia dos direitos territoriais das comunidades quilombolas
por meio da regularização fundiária e
da proteção dos territórios.
55. Estabelecimento de metas precisas de titulação
até o final do segundo mandato do presidente Lula,
com garantindo recursos técnicos e orçamentários.
56. Imediata conclusão dos processos de regularização
em curso no INCRA.
57. Fomento e implementação de projetos de
produção sustentável. Acesso aos sistemas
de mercado justos e solidários.
58. Educação diferenciada que respeite e valorize
as peculiaridades das comunidades quilombolas.
59. Atenção diferenciada à saúde
que reconheça e valorize as práticas e saberes
tradicionais. Defesa dos conhecimentos tradicionais das comunidades
de práticas lesivas aos seus interesses como a biopirataria.
60. Garantia de acesso às políticas públicas
de inclusão social.
Políticas de Fortalecimento Institucional
da UNEGRO. Lutar para:
61. Conquistar a sede própria da entidade, a partir
de uma campanha nacional lastreada por um projeto de captação
de recursos.
62. Crescer e organizar a UNEGRO em todos os estados, a
partir da militância consciente do significado do racismo
e da necessidade da sua superação.
63. Estabelecer uma política de comunicação
e construir e manter, permanentemente, o sitio da UNEGRO como
forma de garantir a estabilidade da circulação
dos ideais da entidade.
64. Reativar o jornal impresso da UNEGRO como uma publicação
periódica nacional e investir em publicações
de livros.
65. Ampliar e fortalecer as relações internacionais,
principalmente com organizações que tratam da
luta anti-racista e organizações feministas.
66. Adequação e estruturação
da nova coordenação com capacidade de acolher
o crescimento da entidade.
67. Criar condições materiais para a mobilidade
e atuação cotidiana de dirigentes.
68. Organizar um Plano de Finanças e de contribuição
financeira nacional.
69. Elaborar cursos de formação política
para os dirigentes e a militância.
A UNEGRO se incorpora à luta geral dos movimentos
sidicais e outros movimentos sociais por:
70. Um projeto de desenvolvimento com distribuição
de renda, democrático, popular e anti-racista.
71. Reforçar ainda mais a unidade popular e garantir
a autonomia dos movimentos sociais.
72. Soberania nacional baseada na ruptura com a lógica
financeira ditada pelo capital especulativo, calcada nos juros
altos e no elevado superávit primário.
73. Apoio à campanha pela anulação do
leilão da Companhia Vale do Rio Doce, processo criminoso
e ilegal que alienou este estratégico patrimônio
brasileiro.
74. Pela demarcação de campo contra a política
privatista que atenta contra os interesses nacionais.
75. Por uma Reforma política democrática, que
respeite à pluralidade partidária, banindo a
restritiva e autoritária cláusula de barreira,
aprofundando os mecanismos de participação popular
como os plebiscitos, referendos, orçamento participativo,
adoção do sistema de lista garantindo o recorte
racial e de gênero.
76. Fim da criminalização dos movimentos sociais
e estabelecimento da plena liberdade de organização
das entidades representativas da sociedade civil.
77. Acabar com o criminoso monopólio da mídia
que impõe a agenda da elite neoliberal à imensa
maioria do povo e democratização dos meios de
comunicação, através da ampliação
das rádios comunitárias e das concessões
de canais de rádio e televisão com financiamento
público para as entidades do movimento social e com
a ruptura do modelo racista de retratar o povo brasileiro.
78. Fim da política econômica neoliberal conservadora
que impede nosso país de crescer e trilhar os caminhos
da justiça social.
79. Rompimento com a ortodoxia do Banco Central, expulsando
de lá os ideólogos defensores e praticantes
da política de juros altos, arrocho fiscal e superávit.
80. Por uma política permanente de valorização
do Salário Mínimo.
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