Apresentação
Bem-vindos ao mundo das idéias defendidas pela UNEGRO.
Este é o nosso caderno de tese que orientará
o debate do III Congresso Nacional da UNEGRO. Movimento Negro:
um passo além da proposta. Leia com atenção,
com fome de conhecimento, com desejo de ampliar sua consciência
sobre as concepções políticas que a nossa
entidade defende para armar a militância para a ação
cotidiana de combater o racismo. Quais as perspectivas que
temos que trazer para o mundo do trabalho, para a luta em
defesa da nossa inclusão nas universidades, para a
luta em defesa dos direitos humanos da população
negra, para o movimento de mulheres, para a juventude negra,
para as religiões de matriz africana, para as comunidades
tradicionais de quilombos, enfim, para o conjunto das principais
frentes de vivência da nossa condição
de negras e negros nessa sociedade.
REBELE-SE CONTRA O RACISMO é o lema da nossa organização,
é o que acreditamos que cada negra, cada negro, cada
pessoa que se diz decente deve fazer para tornar o Brasil
um país sem racismo.
Raça, gênero e classe são conceitos
que, para nós, caminham juntos, por isso defendemos
um projeto de nação que supere a opressão
racial, a opressão de gênero e a opressão
capitalista. Um projeto de nação que deixe de
ser bom apenas para alguns, mas que seja bom para todas as
pessoas que formam o povo brasileiro.
AXÉ!
ROTEIRO
Temas Centrais
- A construção do povo brasileiro e o desafio
político da Igualdade na Diversidade.
- O Papel das Políticas Universais e das Políticas
de Ações Afirmativas na Superação
do Racismo.
- A UNEGRO no curso do Movimento Negro: balanços
e perspectivas da ação política.
Temas Dos Grupos De Trabalho
- Fortalecimento Institucional da UNEGRO
- Participação da militância negra
em espaços institucionais.
- Mulher Negra e os Instrumentos de Articulação
Política Nacional
- Religiões de Matriz Africana
- Comunidades Tradicionais.
- Juventude: Desafios Político e Organizacional.
I - PRINCÍPIOS GERAIS:
a) A UNEGRO – União de Negros Pela Igualdade
- em seu III Congresso Nacional, reafirma sua vocação
de entidade do Movimento Negro que estabelece a luta política
pelos direitos da população negra, reitera seus
princípios e compromissos com a luta pela superação
do racismo, do machismo e das desigualdades de classes sociais
que marcam o sistema capitalista. Afirma e desenvolve sua
compreensão de que o racismo e o machismo são
ferramentas de opressão que aprofundam as desigualdades
sociais e cristalizam relações de dominação,
principalmente na sociedade capitalista, resultando em exclusão
de milhões de pessoas do acesso aos bens econômicos,
sociais e culturais no Brasil e no mundo. À luz dessa
compreensão, a UNEGRO assume o desafio de articular
a luta anti-racismo com a luta pela superação
do capitalismo e da opressão de gênero. Compreendemos
que os séculos de práticas racistas e machistas
estruturaram subjetividades no pensamento humano que contribuem
significativamente com a opressão, assim, podem sobreviver
à queda da ordem atual se não for concomitantemente
superadas.
b) A UNEGRO trabalha para a solidariedade e unidade do Movimento
Negro e dos segmentos populares que sofrem outras formas de
opressão, com o objetivo de acumular forças
e de construir agendas que favoreçam à formação
de uma nova sociedade, com justiça social e econômica,
solidariedade entre todas raças, povos e etnias. Por
isso, incentivamos a participação da população
negra e de nossa militância nos partidos, sindicatos,
associações populares, universidades, administrações
públicas, etc.
c) A concepção política da UNEGRO é
de uma entidade anti-racista, emancipacionista e classista,
pois consideramos necessário articular a luta contra
as opressões de raça, gênero e classe
que dão sustentação ao padrão
de acumulação de riquezas no Brasil desde o
período da escravidão até o momento atual
do capitalismo dependente, e que radicaliza a exclusão
social nesta etapa neoliberal em que vive a sociedade.
O racismo, diferentemente do preconceito e da discriminação,
tem aspecto estrutural e se define como um dos mecanismos
sistêmicos que impedem a inserção sócio-econômica
da população negra. Por isto, a luta pela equidade
social é a nossa meta e ela passa, necessariamente,
pelo avanço da consciência política da
população negra e pela sua organização.
1- A CONSTRUÇÃO DO POVO BRASILEIRO
E O DESAFIO POLÍTICO DA IGUALDADE NA DIVERSIDADE.
1. O sistema capitalista, historicamente construído
a partir de paradigmas liberais e eurocêntricos, implicou
no massacre dos povos de matriz africana, indo-americana e
parcela importante dos asiáticos. A brutal concentração
de renda mundial, em que 80% do total de riquezas estão
nos países ao norte do Equador guarda relação
com a construção histórica deste modelo
de acumulação de riquezas.
2. A UNEGRO compreende que a nação brasileira
é fruto de fatos históricos como o colonialismo
e o escravismo. Aqui houve o encontro de diferentes povos
e se estruturou relações de dominação
que ainda não foram superadas. O povo brasileiro é
único e traz a marca da diversidade na sua gênese:
os povos originais, denominados pelos colonizadores de indígenas;
os milhões de negros africanos trazidos da Nigéria,
do Benin, de Angola, de Moçambique, da Guiné
Bissau, do Senegal e de outros cantos daquele vasto continente,
que resistiram à escravidão e à brutal
violação dos seus direitos humanos e hoje permanecem
majoritariamente no limbo da exclusão social; os brancos
europeus e seus descendentes que atravessaram a história
em sucessivas gerações e continuam majoritariamente
representados no topo da pirâmide social, econômica
e política do país. Sem dúvida a grande
obra da nação é reconhecer a riqueza
da sua diversidade e construir a igualdade como fruto da valorização
e interação das diferenças. O povo brasileiro
desenvolveu um sentido de identidade nacional, forjado pelos
séculos de convivência de diferentes grupos que
fizeram a nação. Habitamos um território
de dimensões continentais, sendo o maior país
da América Latina. Vibramos com o futebol, com o carnaval,
falamos um idioma comum, somos reconhecidos pelo nosso jeito
alegre de ser. Portanto, é preciso, mesmo nos marcos
da sociedade capitalista, crescer o grau de conscientização
da sociedade brasileira em relação aos impactos
do racismo e em relação à necessidade
de se remover os perversos obstáculos que se interpõem
no caminho da população negra e indígena,
que atrasam o desenvolvimento pleno do país e do seu
povo.
3. Embora a lei estabeleça a igualdade formal entre
os brasileiros, a experiência demonstra que um enorme
contingente, que traz na pele a marca da herança africana,
é relegado a planos subalternos, sofrendo com baixos
salários, más condições de moradia,
educação e saúde, violência policial,
dificuldades de todo tipo para alcançar e manter condições
mínimas de emprego e reconhecimento social. É
um povo único, mas que sofre diferenças iníquas
que decorrem da cor da pele. É preciso que os desiguais
sejam tratados de forma diferenciada para que a igualdade
se estabeleça: este é o princípio que
precisa reger as políticas públicas anti-racistas,
permitindo a promoção social e humana do enorme
contingente da população brasileira que é
marginalizado pelo racismo.
4. A UNEGRO acredita que o Brasil será um
país verdadeiramente democrático quando libertar
a população negra e indígena das amarras
do racismo, as mulheres do jugo do machismo e reduzir as profundas
desigualdades sociais. Democracia é antítese
de racismo, machismo e desigualdade, ou seja, onde há
opressão racial, opressão sobre as mulheres
e sobre os trabalhadores não há verdadeira democracia.
Trabalhamos para o Brasil e para os brasileiros, nos solidarizamos
com todos os povos oprimidos da África, da diáspora,
da América Latina.
5. Particularmente na América Latina, governos antiliberais
e que se contrapõem á política belicosa
dos EUA, em alianças com movimentos sociais progressistas,
vêm vencendo eleições. A Venezuela, a
Bolívia, o Chile, o Uruguai, a Nicarágua, a
Argentina são exemplos que se somam à experiência
brasileira. Nos Estados Unidos crescem os protestos contra
a política belicosa da extrema-direita representada
por George W. Bush e na Europa assiste-se uma tendência
à contenção do avanço da direita.
6. Em termos globais, fortaleceu-se a articulação
internacional dos movimentos sociais dando ainda mais projeção
à luta dos povos contra o neoliberalismo, como as versões
do Fórum Social Mundial, que confronta a lógica
do discurso único do Fórum Econômico Mundial
de Davos. No ambiente do Fórum Social Mundial tem lugar
a luta contra o racismo, que ganhou uma dimensão mais
ampla desde a realização da III Conferência
Mundial de Combate ao Racismo, a Discriminação
Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, em 2001,
na África do Sul.
7. Está nítido que o atual modelo de acumulação
de riquezas é insustentável e predatório.
Predatório de gente, de ambiente, de recursos energéticos.
Se fosse estendido a todo o mundo, o padrão de consumo
médio estadunidense, necessitaria de quatro vezes os
recursos naturais existentes no planeta Terra. Ainda assim,
vemos, nesse país, largas parcelas da população
negra vivenciando situações de pobreza e miséria,
tal qual ficou comprovado quando o furacão Catrina
atingiu a cidade de Nova Orleans.
8. No aspecto ambiental, cada vez mais fica próximo
o esgotamento das fontes energéticas do nosso planeta,
utilizadas no sistema de produção, que hoje
são baseadas nos combustíveis fósseis.
A primeira vista, as fontes energéticas substitutas
mais viáveis são as da biomassa (as energias
solar e eólica, também são importantes
possibilidades que devem ser exploradas), situadas nas regiões
tropicais úmidas, na América Latina e África,
em particular, Brasil e África do Sul. Do ponto de
vista estratégico, a soberania dessas nações
implicará em um reordenamento do poder global mundial,
daí a necessidade de apoiarmos um projeto nacional
de desenvolvimento soberano e redistributivo de riqueza.
2- O PAPEL DAS POLÍTICAS UNIVERSAIS E DAS
POLÍTICAS DE AÇÕES AFIRMATIVAS NA SUPERAÇÃO
DO RACISMO.
10. A UNEGRO tem uma avaliação positiva do
movimento negro no último triênio. As organizações
negras estão conseguindo instituir o debate sobre a
questão racial na agenda nacional e influenciar o Estado
no sentido de criar estruturas governamentais vocacionadas
a desenvolver políticas públicas anti-racistas.
São avanços que vêm sendo radicalmente
combatidos por uma pequena elite beneficiária do privilégio
de ter sido sempre hegemônica no acesso aos bens culturais,
aos empregos de alta remuneração e prestígio
social. Essa elite considera que políticas
de combate ao racismo significam políticas de divisão
da sociedade brasileira. A UNEGRO defende a compreensão
de que quem divide o povo brasileiro é o preconceito,
o racismo, a discriminação racial e a desigualdade
de classes.
11. A UNEGRO avalia positivamente as ações
do governo Lula, embora reconheça que a política
de enfrentamento do racismo deveria e precisa ser mais arrojada,
mereceria mais determinação por parte do conjunto
do governo. Entre as ações realizadas ou em
processo de implantação destacamos a criação
da SEPPIR, a sansão da Lei 10.639, que alterou a LDB
e instituiu a obrigatoriedade do ensino da História
e da Cultura Afro-brasileira e Africana, as políticas
de titulação das terras de comunidades remanescentes
de quilombos, o Pró-Uni, o avanço da política
de cotas em diversas universidades públicas federais
e estaduais (ainda que não tenhamos conseguido uma
reforma universitária que inclua a política
de cotas) e as políticas de caráter universal
de combate à pobreza como o programa Bolsa-Família,
o Programa Luz para Todos, a criação do projeto
do FUNDEB e o Programa Nacional de Desenvolvimento da Educação,
que devem ser importantes alavancas neste segundo mandato
do governo. Também vale aqui destacar como fator positivo
a condução de negros e negras ao primeiro escalão
do governo (ressaltamos, entretanto, que , embora seja importante,
ainda é muito tímida e restrita a ministérios
com pequenos orçamentos) e a indicação
de um negro para o Supremo Tribunal Federal. No plano das
relações internacionais o Brasil reorientou
a sua política, priorizando as relações
Sul/Sul, fortalecendo assim os laços com a América
Latina e com países africanos e com alguns países
da Ásia.
12. A UNEGRO entende que o movimento negro deve intensificar
seu diálogo com a população, com outros
movimentos populares, ampliar sua presença nas ruas
e aprofundar a crítica às questões gerais
que oprimem a grande maioria da população (baixos
salários, desemprego, ausência da reforma agrária,
reforma urbana, à manutenção da política
neoliberalismo etc.). Nesta perspectiva, articulamos a nossa
presença na CMS – Coordenação de
Movimentos Sociais – e convencemos a CONEN- Coordenação
Nacional de Entidades Negras a, também, participar,
por entendermos que a CMS é um espaço objetivo
de aglutinação dos principais segmentos e organizações
do movimento social brasileiro (CUT, UNE, MST, UBES, UJS,
CMP, CONAM, UBM, Marcha Mundial de Mulheres, etc). Precisamos
ampliar ainda mais a nossa atuação e de outros
setores e segmentos do Movimento Negro na CMS.
13. Com organização e pressão construiremos
uma nova cultura de políticas públicas, capazes
de articular políticas universais com políticas
voltadas a atender as necessidades específicas dos
grupos historicamente discriminados. Somente assim nos posicionaremos
na direção da equidade social. Entendemos que
as ações institucionais têm suas limitações,
pois são realizadas dentro da perspectiva do sistema
capitalista, tornando necessária a organização
da população negra e pobre do país para
a superação do sistema social vigente que se
manifesta nas opressões racistas, machistas e classistas.
3- A UNEGRO NO CURSO DO MOVIMENTO NEGRO: BALANÇOS
E PERSPECTIVAS DA AÇÃO POLÍTICA
14. Os anos pós II Congresso Nacional da UNEGRO,
realizado em julho de 2003 na Bahia, foram marcados por conquistas
importantes e por um certo avanço da influência
do Movimento Negro no cenário nacional. Sem dúvida,
a chegada do governo Lula ao poder, cuja vitória se
sustentou na força dos movimentos sociais brasileiros,
foi um dos mais importantes fatores que possibilitou um ambiente
político mais favorável à atuação
do movimento negro e de outros movimentos sociais. A UNEGRO
– União de Negros Pela Igualdade, tem se fortalecido,
sintonizada com a política progressista em curso. Devido
a nossa contribuição pregressa e a forte presença
na luta anti-racista atual, somos uma entidade reconhecidamente
importante no Movimento Negro, respeitada por vários
segmentos sociais, parlamentares, partidos e governos. Participamos
da construção, coordenação e proposição
de várias ações do Movimento Negro em
âmbito nacional e regional. Um dos resultados desse
protagonismo é o crescimento interno da entidade. No
II Congresso Nacional da UNEGRO participaram seis estados
(Bahia, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Rio de Janeiro e Minas Gerais). Esse número correspondia
a todo acúmulo de forças que a UNEGRO construiu
em 15 anos de existência. Atualmente estamos organizados
e/ou nucleados em vinte estados (Bahia, São Paulo,
Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais,
Paraná, Espírito Santo, Brasília, Rondônia,
Amapá, Ceará, Pernambuco, Amazonas, Maranhão,
Tocantins, Mato Grosso do Sul, Piauí, Sergipe e Pará).
Nossa inserção se dá, principalmente,
nas capitais – como diagnosticamos no congresso anterior
- embora alguns estados têm investido continuamente
nos municípios do interior, a exemplo do Piauí,
Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio
Grande do Sul. Esse crescimento é o principal indicador
de que estamos no caminho correto.
15. Funcionamento da UNEGRO – O Brasil é um
país de proporção continental, isso dificulta
a mobilidade, comunicação interna e, conseqüentemente,
a organização de entidades nacionais, especialmente
aquelas que têm poucos recursos materiais. A despeito
dessas determinantes, conseguimos unificar o discurso da UNEGRO
em todo território nacional, por essa razão
somos a organização nacional com maior grau
de unidade no Movimento Negro. Essa conquista se viabiliza
devido os constantes diálogos, reuniões, encontros
possibilitados pela agenda geral do Movimento Negro, além
do esforço individual de membros que compõe
a coordenação que está encerrando o mandato.
A soma entre continuidades e avanços foi fundamental
para que a UNEGRO consolidasse, após o último
congresso, uma Coordenação Nacional coesa e
integrada às lutas dos movimentos sociais e do Movimento
Negro Brasileiro. No entanto, há necessidade de uma
nova composição e estruturação
que correspondam ao crescimento da entidade e aos desafios
políticos que se apresentam. Para isso devemos ajustar
o formato da atual coordenação, definir e assegurar
o desempenho de funções de forma mais precisa,
evitar a concentração de funções
e tarefas, fato que não contribui com a democracia
interna da entidade. Temos que constituir uma coordenação
capaz de articular todos os estados em que estamos organizados
ou nucleados, manter uma executiva relativamente enxuta para
que possamos ter mobilidade e garantir presença nas
reuniões, além de tornar estas mais sistemáticas.
Assim teremos uma resolução específica
sobre a forma e a composição da direção
da entidade de maneira a elevar a qualidade e melhor articular
nossas ações.
II - GRUPOS DE TRABALHOS
1. FORTALECIMENTO INSTITUCIONAL DA UNEGRO
16. A UNEGRO ainda é uma entidade relativamente jovem
no movimento negro. Tem apenas 19 anos. Mas ao longo da sua
existência conseguiu conquista o seu lugar na cena nacional,
contribuir tórica e politicamente com o conjunto do
movimento negro. Na trilha para atingir a sua maturidade a
UNEGRO deve aprofundar o seu caráter de entidade de
massas, influenciar o pensamento da população
negra e atrair largas parcelas dessa população
para o seu interior. Para isso é fundamental avançar
na criação da UNEGRO em todos os Estados da
Federação e consolidá-la em termos estruturais
para melhor fazer fluir a política anti-racista conduzida
pela instituição.
2- PARTICIPAÇÃO DA MILITÂNCIA
NEGRA EM ESPAÇOS INSTITUCIONAIS.
17. Mesmo com dificuldades e limitações de
ordem financeira e de infra-estrutura, a UNEGRO, ao longo
de sua história, vem se constituindo como um espaço
de formação de quadros para a luta anti-racista
no Brasil. A crítica à ausência de políticas
públicas com recorte racial em governos anteriores
ao do presidente Lula e à insuficiência das políticas
emanadas do governo Lula, possibilitou que a nossa militância
e dirigentes da entidade ocupassem conselhos e órgãos
de controle social para pressionar por mudanças a partir
de propostas objetivas. Outro destaque importante que deve
ser reforçado é a conquista de mandatos parlamentares,
eles têm grande significado para a luta anti-racista
e reflete positivamente para o projeto nacional da UNEGRO.
Contamos com mandatos que tradicionalmente contribuem de forma
singular para o avanço das conquistas da população
negra, para o movimento negro e para a UNEGRO. Com o avanço
do debate sobre a questão racial diversas estruturas
de governo têm sido criadas com o objetivo de formular
e implantar políticas públicas de combate ao
racismo. Com o crescimento da esquerda nos governos, em diversos
estados e municípios, a UNEGRO, através de seus
quadros que tem militância partidária, tem participado
efetivamente de algumas experiências de governo e de
conselhos, que são importantes instrumentos de controle
social. A CONE-SP, a Coordenação de Relações
Institucionais da Secretaria de Reparação de
Salvador-BA, a secretaria de Reparação Social
da prefeitura de São Sebastião do Passé-BA,
a secretaria de Reparação da Mulher e da Juventude,
em Cruz das Almas-BA, o CODENE-RS, são exemplos mais
destacados dessa nossa trajetória de participação.
Além desses, temos, também, presença
na SEPPIR, ocupando uma assessoria especial e lutamos para
que outros militantes possam participar de maneira mais expressiva,
ocupando outros cargos, no segundo mandato do governo Lula.
18. Assim, a UNEGRO vai construindo a sua experiência
de participação, também, em frentes institucionais,
o que precisa fazê-lo de maneira a não se esvaziar
enquanto entidade do movimento social, que tem como vocação
maior à luta política cotidiana, a organização
da população negra, o tratamento de casos de
racismo e a busca da transformação estrutural
da sociedade.
3- MULHER NEGRA E OS INSTRUMENTOS DE ARTICULAÇÃO
POLÍTICA NACIONAL
19. O diagnóstico da situação da mulher
negra na sociedade brasileira contemporânea resulta
do intenso debate travado nos últimos anos pelas organizações
e militância do movimento negro, das feministas negras
e das sólidas pesquisas publicadas pelos vários
institutos (IBGE, IPEA, DIEESE, SEADE). Os dados levantados
contribuíram para dar maior visibilidade à problemática
vivida pelas mulheres negras e para fundamentar, ainda mais,
a agenda de lutas sociais. Tudo isso é ao mesmo tempo
conquista e desafio à elevação do grau
de organização e de unidade do movimento de
mulheres negras. Esse movimento que impulsionou a realização
de políticas públicas com corte racial e de
gênero oferecidas pelo Estado. Vale registrar que as
necessidades históricas e atuais superam as políticas
realizadas. É provado que em todos indicadores que
medem qualidade de vida a mulher negra sofre desvantagens.
São as que mais sofrem com a violência doméstica,
a precarização dos seus direitos reprodutivos,
a má qualidade dos serviços públicos
de saúde e educação e que mais tem a
sua imagem negada ou vilipendiada pela mídia.
20. As últimas pesquisas do IBGE- 2006, reafirmam
a hierarquia salarial construída ao longo do tempo,
em que homens brancos têm maior rendimento médio
mensal (R$ 931,50), seguidos pelas mulheres brancas (R$ 572,86),
homens negros (R$ 450,70) e mulheres negras (R$ 290,50). Esse
é o principal motivo da manutenção das
mulheres negras na base da pirâmide social. Estudos
publicados pelo BNDES no ano de 2006 mostram que, mantida
a evolução dos últimos dez anos, somente
em 2081 as mulheres deverão ter salários iguais
aos dos homens. Levando em conta o critério raça,
a mulher negra chegará a esse rendimento em 2156. Esse
estudo conclui que, embora a mulher tenha conquistado maior
espaço no mercado de trabalho, que demanda maior qualificação
da mão de obra, sua remuneração é
inferior a que recebe os homens nos postos com o mesmo grau
de especialização, no caso da mulher negra as
desigualdades salariais são ainda maiores. Diante dos
fatos comprovados, cientificamente, o debate sobre a desigualdade
racial e de gênero é essencial, para que encontremos
medidas que imponham aos governos e empregadores o pagamento
de salários iguais aos que desempenham as mesmas funções,
independente de sexo e raça.
21. Segundo o Censo IBGE 2002, 32,1% das famílias
brasileiras são chefiadas por mulheres. Levando em
conta que as mulheres ganham menos que os homens, e que quando
são negras os salários percebidos são
ainda piores, poderemos afirmar que esse índice de
famílias chefiadas por mulheres é um indicador
da grave vulnerabilidade social que as mulheres estão
submetidas, mais gravemente, repetimos, as mulheres negras.
Ao tratarmos do fenômeno da feminização
da pobreza, há que se dar conta, também, da
racialização da pobreza e suas conseqüências.
22. A história oficial brasileira nega a efetiva participação
da mulher na construção da riqueza nacional,
razão pela qual não mostra que a presença
da mulher na condição de sustentáculo
econômico das famílias não é um
fenômeno novo. Sempre houve famílias matriarcais
no Brasil, principalmente as famílias negras. Por essa
razão a Unegro defende que as Políticas de combate
ao racismo tenham como beneficiárias prioritárias
as mulheres e as crianças, principalmente, que privilegie
as mulheres arrimo, chefes de família.
23. O movimento contemporâneo de mulheres negras ganhou
uma maior visibilidade e aprimorou sua organização
a partir dos anos 70, influenciando e ampliando a compreensão
dos movimentos negro e feminista sobre a tripla discriminação
que a mulher negra sofre. A UNEGRO compreende que nos últimos
anos houve um crescimento qualitativo na organização
das mulheres negras brasileira. Esse crescimento se expressa
de duas formas: organizativamente (através de diversas
entidades de mulheres que se estabeleceram no cenário
político nacional) e politicamente (no debate teórico/político,
que invariavelmente pauta a agenda do movimento social). No
entanto, o crescimento organizativo e político não
foram suficientes para forçar uma maior materialização
de políticas públicas a altura do quadro de
necessidades.
24. A UNEGRO sempre participou e compreende a necessidade
de resgatar e fortalecer o Fórum Nacional de Mulheres
Negras, criado em 2003. Ao longo do tempo o FNMN sofreu um
esvaziamento com a criação de outras articulações,
porém não está superada a necessidade
de termos um Fórum capaz de articular todas as mulheres
que fazem a militância do feminismo negro, sejam elas
membros de entidades específicas de mulheres ou de
entidades mistas. A paralisação desse importante
instrumento de articulação mais ampla das mulheres
é fruto da incompreensão e do divisionismo que
vem marcando o movimento de mulheres negras no Brasil.
25. Na sua origem o FNMN tinha como objetivo evitar a dispersão
na organização das mulheres negras em plano
nacional e constituir-se como um espaço de ação
política coletiva, de unificação de propostas
para fazer avançar a luta das mulheres negras. Hoje,
para dar respostas ao desafio, é necessária
uma relação mais profunda com os espaços
de convivência social das mulheres negras (nas periferias
das cidades, nas fábricas, nos espaços de cultura
popular, nos espaços religiosos de todas as tendências
e matrizes e ,também, nas universidades, etc.) para
ampliar seu protagonismo, e a construção de
um espaço de articulação, troca de experiências,
debates e realização de ações
conjuntas. Por isso trabalharemos para contribuir com o diálogo
com outras organizações no sentido da construção
da viabilidade política e organizativa do FNMN –
Fórum Nacional de Mulheres Negras.
4- RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E COMUNIDADES
TRADICIONAIS.
25. A UNEGRO no seu II Congresso reafirmou seu compromisso
com a luta contra a intolerância religiosa, especialmente
no que diz respeito às religiões de matriz africana,
a exemplo do Candomblé, da Umbanda e até mesmo
do Espiritismo, que sofrem ataques diversos de uma sociedade
que foi educada para a não aceitação
de pensamentos religiosos fora da matriz judaico cristã.
No caso do Candomblé, nas suas diferentes nações,
que enfrenta a maior carga de preconceito e discriminação,
a sua constituição é oriunda dos negros
e negras escravizados, era a religião da classe subalterna,
dos povos submetidos ao domínio colonialista ibero/português,
fortemente influenciado pela Igreja Católica. Atualmente,
as igrejas neo-pentecostais vêm realizando ataques sistemáticos
às religiões de matriz africana e, mais que
isso, assumem uma prática ideológica de apropriação
de símbolos e ícones dessas religiões
para fins de cooptações de adeptos. Um exemplo
é o surgimento das tais baianas evangélicas
que usam parte da indumentária das baianas tradicionais
para vender os chamados “acarajés de Cristo”.
Quem conhece o candomblé sabe que acarajé é
comida de orixá, do orixá Iansã, que
tornou-se uma das principais marcas da culinária brasileira,
principalmente na Bahia, a partir do momento em que as filhas
de santo dos terreiros passaram a vender os bolinhos de feijão
fradinho nos tabuleiros, para assegurar a renda familiar e
do próprio terreiro.
26. A UNEGRO assumiu papel destacado na denuncia do racismo
que fundamenta a intolerância religiosa contra o candomblé.
Lançou no seu II Congresso a campanha “Orixás,
Inquices, Voduns e Caboclos: mexeu com eles mexeu comigo”.
Uma iniciativa que precisa ser intensificada. Ser mais que
uma campanha, ser uma ação permanente da UNEGRO
na defesa da desdemonização da religiosidade
de matriz africana e a sua valorização enquanto
religião.
27. Vale resgatar algumas iniciativas concretas da que a
UNEGRO no terreno da luta contra a intolerância Religiosa:
em São Paulo, no final da década de 1990, iniciou
um projeto de cadastramento dos terreiros de Candomblé
de todo o Brasil; propusemos o projeto de Lei de autoria do
deputado Daniel Almeida, que foi aprovado na Câmara
dos Deputados e que hoje tramita no Senado, que institui o
dia 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à
intolerância Religiosa, inspirada na Lei Municipal n°.
6464/2003, de autoria da vereadora Olívia Santana,
membro da nossa entidade.
28. A UNEGRO é uma entidade que se orienta pela defesa
da laicidade do estado brasileiro e das instâncias representativas
do Estado. Entretanto, reconhece o direito de seus militantes
professarem qualquer religião ou, também, de
não ter religião alguma. Mas é parte
da agenda política da entidade o combate ao racismo
que fundamenta as práticas de intolerância contra
o Candomblé e outras religiões de matriz africana,
que na época do escravismo foram construções
culturais que contribuíram com a recriação
da humanidade dos negros coisificados e transformados em mercadorias,
desumanizadas.
5 - COMUNIDADES TRADICIONAIS.
29. Além do tratamento da questão religiosa
é preciso intensificar a atenção às
comunidades negras tradicionais ou mais precisamente às
comunidades remanescentes de quilombos. A titulação
das terras ainda vem se dando de maneira lenta no Brasil,
mesmo sob o auspício do governo Lula. Avançou
o processo de reconhecimento das comunidades, através
da autodeclaração, que é realizada sob
o acompanhamento da Fundação Cultural Palmares.
Mas daí até chegar ao final do processo que
garante a titulação é um longo caminho.
É preciso fortalecer a luta dos quilombolas e pela
aceleração dos processos de titulação
de terras como um patrimônio coletivo (nunca individual,
pois o próprio movimento quilombola estabeleceu esta
amarra junto ao governo para evitar os casos de vendas dos
lotes para fazendeiros e grileiros que vivem da especulação
e assediam os titulados), pelo acesso ao crédito e
por políticas de desenvolvimento sócio econômico
das comunidades.
6- JUVENTUDE: DESAFIOS POLÍTICO E ORGANIZACIONAL.
30. A juventude negra é a principal vítima
da violência policial, do aliciamento promovido pelo
tráfico, da falta de oportunidade de acesso ao emprego,
da falta de oportunidades educacionais, da gravidez precoce
e dos graves problemas enfrentados pelos jovens na nossa sociedade.
A elite, que não aprendeu a lição de
compartilhar a riqueza, movimenta-se no congresso para reduzir
a maioridade penal. Isto posto, significará a consagração
da violência do Estado contra os jovens negros e pobres.
A UNEGRO tem que vencer o desafio de se tornar uma referência
para a juventude negra. Apresentar-se como uma alternativa
para a organização política dos jovens,
capaz de responder as suas necessidades de organização.
Sem dúvida, a luta contra o racismo é uma luta
para milhões. Não vamos conseguir superar o
sistema racista sem a participação das novas
gerações. O tráfico tem projeto estratégico
de aliciamento de menores. Ocupa as favelas e recruta centenas
de jovens que não conseguem emprego formal e pagam
pelos serviços dos chamados aviões. A arma e
as responsabilidades para com as bocas de drogas tornam-se
símbolos de poder para meninos, também para
meninas. É preciso apresentar uma perspectiva nova
para os jovens pobres de maioria negra. Nos últimos
20 anos o movimento HIP HOP surgiu como uma alternativa capaz
de mexer com o orgulho e com a auto-estima da juventude das
periferias e é um movimento de contestação
e de crítica contundente ao descaso da sociedade para
com os excluídos. A UNEGRO tem, ao longo da sua história,
se aproximado e participado de alguma forma desse movimento
por entender que pode contribuir com esse e com outros movimentos
que favorecem a conscientização e politização
dos jovens.
Rio de Janeiro, 2007.
UNEGRO: 19 ANOS DE REBELDIA E
LUTA CONTRA O RACISMO!
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