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II CONGRESSO DA UNIÃO DE NEGROS PELA IGUALDADE


Índice

1. Apresentação pág. 02

2. O Recrudescimento do Racismo Estrutural pág. 03

3. Políticas Públicas de Combate ao Racismo pág. 04

4. Racismo e Mercado de Trabalho pág. 05

5. Educação e Desigualdade Racial pág. 06

5.1. Mulher Negra e Educação pág. 07

5.2. As Cotas nas Universidades pág. 08

6. Direitos Humanos e Cidadania: Uma Avaliação Pós-Durban pág. 10

7. Crianças, Adolescentes e Juventude pág. 13

7.1 Situação Familiar pág. 14

7.2 Comunidade pág. 14

7.3 Trabalho pág. 15

7.4 Instrumentos de Defesa dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes pág. 16

8. Mexeu Com os Meus Ancestrais, Mexeu Comigo! pág. 17

9. Mulher Negra e Sua Participação no Mercado de Trabalho pág. 19

9.1. Feminização da pobreza O perfil da desigualdade social pág. 20

9.2. Violência de Gênero pág. 21

10. Organização e Estrutura pág. 21

11. Referências Bibliográficas pág. 22

1 . UNEGRO HOJE:

1. A Unegro – União de Negros pela Igualdade chega ao seu II Congresso reafirmando o princípio de organização que busca uma saída revolucionária no enfrentamento do racismo, da discriminação racial e da segregação que vitima a população negra. Além disso, busca organizar a população negra para lutar por um novo sistema social que ponha abaixo o capitalismo e todas as formas de opressão por ele produzidas; um novo sistema social baseado na igualdade, na justiça social, racial e de gênero que beneficie o povo brasileiro.
2. A Unegro - é uma organização com vocação para afirmar a cidadania negra a serviço de um novo Brasil. Termos mulheres e homens negros participando como sujeitos da construção de uma sociedade nova com socialização das riquezas, da produção intelectual, inspirado no que há de melhor dos ideais que orientaram as rebeliões negras, a secular experiência do Quilombo dos Palmares, e outras experiências vivenciadas pelo povo brasileiro e de outras partes do mundo na busca de liberdade, igualdade e justiça.

3. É com obstinado Espírito de luta e com uma visão política que articula, raça, gênero e classe, que a UNEGRO participou de forma destacada de importantes movimentos e eventos nacionais e internacionais como o I ENEN ( Encontro Nacional de Entidades Negras) em 1991, o Encontro Continental dos Povos Negros das Américas em 1995, a Marcha Zumbidos Palmares em Brasília em 1995, do Encontro Latino Americano e Afrocaribenho, em 1996 na Costa Rica, do movimento Brasil Outros 500, em 2000, da III Conferência Mundial Contra o Racismo a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância em 2001, na África do Sul, sendo uma das três entidades negras a denunciar o racismo brasileiro no plenário Oficial da Conferência.

4. A Unegro, em seu primeiro congresso, estabeleceu seu programa nacional, seu estatuto unificado, uma carta de princípio e uma direção nacional, composta por uma executiva e uma coordenação geral, passo importante para a consolidação e unificação da sua identidade nacional.

QUE A UNEGRO PENSA SOBRE FINANCIAMENTO

5. A UNEGRO no seu II Congresso avança no debate sobre financiamento e assume uma posição mais aberta e madura, sobre como lidar com recursos financeiros. A UNEGRO sempre assumiu postura cuidadosa no trato com financiamento, pois para o conjunto dos militantes, a entidade deve se manter como uma organização popular independente. Seus diretores não devem se tornar meros gerenciadores de projetos, atrelados a agências financeiras e permitir arrefecer o papel político e mobilizador da entidade nas ruas e nos movimentos sociais.

6. Entretanto, é preciso ter recursos para viabilizar as ações da UNEGRO e realizar experiencias concretas junto à comunidade negra. para tanto, é preciso ter visão global de financiamento. ter a devida dimensão de que o dinheiro serve a realização dos planos, dos objetivos da entidade e não dos seus diretores individualmente. Os projetos da UNEGRO não devem se referenciar na linha determinada por agencias ou qualquer outra instituição financiadora. Eles devem ser idealizados e realizados a partir de necessidades identificadas pela UNEGRO de maneira a servir aos interesses da população negra e ao avanço da luta contra o racismo.

7. A agencia ou instituição financeira que optarem por se tornar parceiras da entidade, não podem interferir na autonomia da UNEGRO e nas suas decisões sobre qual deve ser a natureza dos seus projetos.

8. Por outro lado, é preciso estabelecer uma relações séria e honesta com o financiador . A experiência da UNEGRO de São Paulo com a IAF por exemplo, foi interessante. Na auditoria feita pela IAF, a UNEGRO foi considerada a melhor entidade no aproveitamento dos recursos e na prestação de contas.

9. Militantes da UNEGRO não pode e não deve recebe salário, só técnicos contratados. O dinheiro não é nossa, o dinheiro é da parceria. O desvio dessa orientação sofrerá sanções por parte da entidade. Cada um deve buscar desenvolver sua vida profissional e não cair na tentação de transformar o movimento em seu ,meio de vida. Não se deve usar o movimento, montar projetos para fazer revolução pessoal, adquirir bens etc. . É presiso amar e servir a causa a qual nos dedicamos.

10. Também é importante tornar público e transparente as bases da negociação, até para poder prestar publicamente contas do que está sendo feito com o recurso, garantindo o aspecto ético no trato com recursos recebidos na forma de doações.

11. Outra questão fundamental é o fato de que devemos investir na tese de fortalecimento institucional e financeiro da entidade a partir do auto-financiamento. Os militantes precisam contribuir financeiramente com a entidade de maneira mais regular e usar a criatividade para promover eventos que fortaleçam o caixa da entidade e nos ajude a estruturar melhor a UNEGRO.

A UNEGRO na CONEN

12. A UNEGRO faz parte da história da Coordenação Nacional de Entidades Negras. Sendo uma das organições fundadoras da CONEN, a UNEGRO colaborou com a construção da referida articulação de entidades, para que esta cumprisse o papel de ser um espaço deliberativo e de encaminhamentos de atividades e ações de âmbito nacional que venham a contribuir de forma eficaz para o desenvolvimento das organizações negras, no sentido de intervir para a concretização de uma nova ordem social, onde os direitos humanos, em sua forma mais abrangente e democrática, considerando os aspectos de gênero e identidade racial, sejam respeitados pelo Estado e vivenciados pela diversidade e pluralidade das mulheres e homens que fazem a sociedade brasileira. Esta foi a idéia que originou a CONEN.

13. Entretanto, desde a realização do II ENEN a CONEN tem se tornado um espaço hegemonizado por uma única força política que acaba criando dificuldade para que a articulação se consolide como um polo aglutinador de diversas organizações da luta contra o racismo. Entendemos que é importante que homens e mulheres negros se organizem em partidos e em todas as estruturas de organizações sociais, mas é preciso diferenciar as entidades e as articulações de entidades das estruturas partidárias. A CONEN precisa ter autonomia e tornar-se um centro aglutinador de um movimento negro diverso e forte

14. A presença da UNEGRO na CONEN deve se dar com uma maior capacidade de atuação crítica. Zelar para que a articulação se oriente por objetivos políticos e metas precisas.
15. A UNEGRO deve atuar no fortalecimento da CONEN sem perder a capacidade de denunciar a ação de outras entidades que possam trazer prejuizos políticos e organizativos para a CONEN.

16. A UNEGRO não deve se submeter às divergências internas dos grupos hegemônicos na CONEN e nem deve paralizar sua atuação no movimento negro em razão das disputas internas destes grupos. Sempre que a UNEGRO sentir manobras e manipulações operadas por estes grupos, a entidade deve denunciar, e não ser conivente com as irresponsabilidades políticas de determinadas organizações.

17. A CONEN deve ser um espaço estimulador do crescimento do movimento negro. Deve combater a idéia de entidades de “eu sozinho”, eu e meu companheiro ou minha companheira , etc . As entidades devem ser instâncias representativas em qualidade e quantidade de membros. Suas portas devem se abrir para a imensa legião de homens e mulheres negras que estão fora do movimento negro.

A UNEGRO E O GOVERNO LULA:

18. A Unegro participou com força da batalha eleitoral de 2003. Colaborou com a vitória do candidato de oposição, Luís Inácio Lula da Silva entendendo que o mesmo representa as forças mais avançadas do movimento social, trabalhadores, movimento negro, feministas, os que lutam pela terra e tantos outros. A vitória de Lula significou um importante derrota das forças conservadoras que detêm o poder econômico em nosso país. Um duro golpe no projeto neoliberal que na era FHC desencadeou um aumento da dependência do Brasil do capital financeiro internacional, desmontou equipamentos sociais, ampliou o desemprego, a concentração de renda e a miserabilidade, mantendo a população negra na base da pirâmide social. A dívida pública brasileira (interna + externa) chegou a 59% do PIB. Uma verdadeira herança maldita foi deixada para o novo governo.

19. Observamos gestos importantes e inéditos neste novo governo. A luta contra o racismo e a discriminação de gênero ganharam relevo com a criação de uma Secretaria Nacional de Políticas Especiais de Promoção da Igualdade Racial, com ministérios compostos com uma maior presença de negros e mulheres e com a chegada de um negro ao supremo Tribunal de Justiça. O governo também tem tido uma importante performance na política externa.
20. Contrariou interesses americanos na Base de Alcântara recuperando o controle nacional sobre a área, se posicionou contra a guerra do Iraque e tem buscado aproximar o Brasil dos países latinos e africanos.

21. 7- Mas o velho modelo econômico fiscalista ainda prevalece sobre o projeto novo que levou Lula a vitória nas urnas. É preciso fazer prevalecer a força da mudança, criar as condições necessárias para o rompimento com a política econômica de caráter ortodoxo ditada pelo FMI,herdada do governo passado; promover o combate sistemático ao neoliberalismo e realizar a adoção de uma nova política que oxigene a economia brasileira, possibilite o crescimento econômico do país, fortaleça o Estado Nacional e favoreça a distribuição de renda e o bem estar social. A Unegro faz parte desta luta, por uma nova perspectiva para o nosso país.

Recrudescimento do Racismo Estrutural

22. Depois de uma verdadeira avalanche ideológica conservadora, o projeto neoliberal começa a sofrer profundos desgastes. A renda chegou a um nível de concentração brutal e o crescimento econômico praticamente estagnou-se. Vendo reduzidas as possibilidades de expansão, o capital vai à guerra. A política belicista do governo dos Estados Unidos e o fortalecimento da direita nos países centrais do capitalismo é a face mais visível desta tendência. A indústria armamentista é uma das principais forças de sustentação do atual governo norte-americano e a guerra se transformou numa alternativa aberta destes setores e num grande negócio.

23. Por outro lado, a insatisfação dos oprimidos tem se manifestado na vitória de candidatos de oposição ao neoliberalismo, particularmente nos países da periferia do capitalismo. Foram os casos de Lula, no Brasil; Alfredo Gutierrez, no Equador; Chavez, na Venezuela (que vem enfrentando uma forte onda golpista dos setores conservadores venezuelanos abertamente apoiados pelos Estados Unidos), e o crescimento vertiginoso de forças oposicionistas com base popular na Bolívia que, só não foram vitoriosas, graças a um acordo das elites locais com apoio dos Estados Unidos. Configura-se uma situação de confronto político entre a direita que dirige os países do centro do capitalismo e forças de oposição ao neoliberalismo que ganham espaço no chamado terceiro mundo. Por isto, os Estados Unidos, maior representante do capital transnacional tem intensificado sua política intervencionista e, principalmente, belicista para garantir seu domínio.

24. Após a grande vitória dos movimentos sociais brasileiros no ano passado com a eleição de Lula, a situação do país encontra-se em um impasse: o governo Lula continua sem uma definição objetiva sobre qual rumo vai tomar. Lula saiu das urnas com forte apoio popular, mas com uma base parlamentar de apenas 281 deputados e senadores. A aliança que elegeu Lula fez apenas 3 governadores. O governo avançou na busca de ampliar sua base de apoio para garantir governabilidade, porém os compromissos históricos que este governo tem com o movimento social e popular em torno de um projeto de transformação nacional, geram demandas no plano econômico e político que entram em choque com os interesses de grupos conservadores que compõem a base de sustentação do governo e estão em disputa com as forças mais avançadas. Há as forças mmais à esquerda que puxam o governo para trilhar o caminho da mudança e há àqueles que buscam manter o governo refém da política adotada pelo governo anterior. Cabe ao movimento social tomar lugar nesta verdadeira queda de braço, de maneira a favorecer as necessárias mudanças. O momento que vivemos hoje, nos obriga a tirar lições do que disse Mandela em sua cerimônia de posse no governo da África do Sul: “Hoje nós somos vitoriosos por Ter chegado à presidência da república. Eu sou governo e vocês são movimento, se organizem para que eu possa fazer aquilo que sempre quis, pois os outros já estão organizados para me obrigar a fazer aquilo que não quero.”

25. A equipe econômica do governo LULa sinaliza para tanto garantir uma credibilidade junto ao capital financeiro transnacional, como gerar recursos suficientes para atender as demandas da população. É uma equação que não fecha. Cedo ou tarde, o governo terá que fazer opções políticas explicitas e, diante da amplitude das alianças que foram feitas, valerá o grau de organização e mobilização dos movimentos sociais. Não acreditamos que este governo seja igual ao anterior, como afirmam alguns críticos apressados e sectários. Há espaço de atuação neste governo e ainda não se pode vislumbrar que ele caminha para se entregar ao conservadorismo, embora não se possa descartar esta possibilidade, caso as forças progressistas não consigam articular-se suficientemente para garantir a hegemonia nesta aliança governamental.

26. O Brasil tem problemas estruturais históricos a serem enfrentados. É uma nação que ocupa um lugar estratégico no cenário atual e tem potencial condições de construir um projeto alternativo de crescimento e desenvolvimento fora da lógica neoliberal. Entretanto, as questões estruturais devem ser enfrentadas, sob pena de qualquer projeto de desenvolvimento não ter qualquer possibilidade de sustentação.

27. Entre estes problemas estruturais históricos está a concentração sistêmica de renda, construída material e ideologicamente pela exploração de classe, pelo racismo e a opressão de gênero. Os dados do IBGE, apresentados na Síntese de Indicadores Sociais – 2002, publicada em maio deste ano, que mais uma vez balizam as denuncias do movimento negro, revelam que 50% dos trabalhadores brasileiros ganham de meio a dois salários mínimos, o que significa 480 reais em tempos atuais, sendo que na Região Nordeste, a mais pobre do país, a proporção chega a 60 por cento.

28. A mesma pesquisa mostra que a população que trabalha somou 75,4 milhões de pessoas, e o rendimento médio da população ocupada foi de apenas 595,40 reais. Mais uma vez a pesquisa constatou a brutal diferença entre os ganhos dos trabalhadores negros e brancos. O IBGE conseguiu identificar melhora em condições socioeconômicas, aumento na expectativa de vida, queda da mortalidade infantil e do analfabetismo, mas não nas desigualdades raciais. Os negros continuam ganhando em média 50% do que ganha um trabalhador branco, semelhante ao que ocorria há 10 anos atrás. Mesmo no caso dos negros com 12 anos ou mais de estudo, a desvantagem salarial em relação à população branca se mantém. Eles recebem pouco mais da metade do rendimento-hora dos trabalhadores brancos, sendo que a situação mais grave aparece nas regiões metropolitanas de Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba e, pasmem, Salvador , a cidade mais negra das Américas.
29. A discriminação de gênero também é intensa. As mulheres com até três anos de estudo ganham 61,5 % do rendimento médio da população masculina com mesmo grau de instrução. Enquanto aquelas com 11 anos e mais de estudo ganham 57,1 % do que recebem os homens com o igual tempo de estudo. O IBGE constatou ainda que os 10 % mais ricos entre os trabalhadores ganhavam em 2001 cerca de 18,31 vezes mais que os 40 % mais pobres, confirmando as diferenças acentuadas ao longo da década de 1990. O rendimento médio dos mais ricos da população ocupada ficou em R$ 2.744,30 em 2001, enquanto a dos mais pobres atingiu somente R$ 149,85. As diferenças entre brancos, negros também são evidentes quando se avalia a distribuição de renda no país. De acordo com o IBGE, entre o 1 % mais rico da população, quase 88 por cento são de cor branca, enquanto entre os 10 por cento mais pobres, aproximadamente 68 por cento se declararam pretos ou pardos.

30. Dados apresentados pelo IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) em 2002, mostram que, mantendo o atual sistema de políticas públicas generalistas, os afrodescendentes demorariam 32 anos para chegar ao mesmo patamar que os brasileiros brancos se encontram hoje – isto significa mais de uma geração. Enfrentar o racismo no Brasil é uma questão estrutural, pois trata-se de uma nação que realizou a acumulação primitiva do capital com base na exploração do trabalho escravo e, em nenhum momento do período pós-abolição, implementou políticas de inclusão social dos descendentes dos africanos escravizados.

31. É preciso portanto, compreender a hierarquia de classe, racial e de gênero que se cristalizou em nosso país que repercute no mercado de trabalho, na educação e em todos os setores da vida sócio econômica e a necessidade de desenvolvermos um Projeto Nacional De Promoção Da Igualdade Racial e Gênero.
32. No âmbito mundial, o racismo também tem servido como elemento legitimador das agressões do capital. Um exemplo é a destruição do continente africano por meio de guerras incitadas pela indústria armamentista transnacional, por meio da espoliação econômica por parte dos órgãos financeiros internacionais e a disseminação de doenças infecto-contagiosas em virtude do monopólio das patentes da indústria farmacêutica transnacional. Conforme aponta a obra da socióloga Susan George, O Relatório Lugano, o atual modo de acumulação de riquezas capitalista só se sustenta com a destruição de pessoas – e os condenados são aqueles que vivem nas periferias do capitalismo, os povos da América Latina e África, os povos não brancos.

33. Neste sentido, a Unegro reafirma a sua tese de que vivemos o recrudescimento do racismo estrutural, a face mais violenta do capitalismo neoliberal. É mais que necessário que o movimento anti-racista tenha um perfil político revolucionário, de combate ao neoliberalismo e de defesa de uma redistribuição radical de renda, promoção de oportunidades e poder. O combate ao racismo é um dos pontos centrais de uma agenda de transformação radical deste sistema social.

Políticas Públicas de Combate ao Racismo

34. Desde a II Conferência Mundial de Combate ao Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância, realizada em Durban, em 2001, o movimento negro brasileiro intensificou a discussão sobre a implementação de políticas específicas de combate ao racismo – as chamadas ações afirmativas. Já de há algum tempo este debate tem sido marcado por duas posições – uma que considera que o movimento negro brasileiro deve se pautar única e exclusivamente pela melhoria das políticas públicas generalistas que garantiriam o acesso de toda a população pobre ao exercício da cidadania, e outra que considera que é necessário focar as políticas públicas para os afrodescendentes, por serem estes o grupo mais vitimizado pela exclusão social. Nesta segunda alternativa estão tanto aqueles que defendem a idéia de que o racismo se manifesta pelas condições desiguais impostas estruturalmente aos afrodescendentes como aqueles que defendem a idéia da constituição de um segmento afrodescendente elitizado que serviria como referencial de auto-estima para o conjunto da população afrodescendente e também como instrumento essencial para a construção de relações raciais éticas e mais tolerantes dentro do capitalismo.

35. Um agravante que deve ser incluído neste debate é que existe uma perspectiva de desmonte das políticas públicas generalistas em função da concepção de Estado mínimo da ideologia neoliberal. A exclusão social tem crescido fortemente em função disto e os mecanismos racistas intensificado. Hoje, praticamente 70% do orçamento público federal é direcionado para o pagamento dos juros da dívida pública. O governo busca arrecadar cada vez mais e gastar menos para que sobrem recursos para o pagamento destes compromissos firmados com os banqueiros – na prática, é transferência de renda da camada média e dos mais pobres (que pagam os impostos diretamente por meio dos descontos compulsórios nos salários e indiretamente quando os empresários embutem nos preços das mercadorias os impostos que eles deveriam pagar) para os mais beneficiados deste sistema (os credores da dívida, banqueiros e especuladores nacionais e internacionais). Lutar por mais verbas para a educação, saúde, previdência, habitação e outras reivindicações populares é exigir que o dinheiro pago pelo povo seja usado em benefício dele – é, portanto, um direito de cidadania, uma bandeira justa e de ruptura com o modelo neoliberal que não pode, em hipótese alguma, ser abandonada em qualquer pretexto, principalmente por um movimento que aponta para a necessidade de transformações estruturais profundas.

36. Porém, os indicadores sociais aqui citados apontam que as políticas generalistas, por melhores que sejam, no limite mantém uma situação de desigualdade construída historicamente. Em outras palavras, tratar desiguais com igualdade é perpetuar a desigualdade. O racismo brasileiro que serviu como legitimação da escravidão até 1888 e depois funcionou como uma ideologia justificadora das desigualdades sociais do capitalismo dependente construído no Brasil. A ruptura com esta tradição de exclusão racial brasileira só pode ser enfrentada com a adoção de políticas públicas específicas – as ações afirmativas – que devem ser combinadas com a ampliação das políticas públicas generalistas. Chamaremos de ações horizontais (genéricas) e verticais (específicas) de combate ao racismo.

37. Qual é a importância desta concepção? Primeiro, não cair no erro de considerar as ações afirmativas como políticas compensatórias ou focalização das políticas públicas. A idéia da focalização ou políticas compensatórias é defendida pelo Banco Mundial em conjunto com a rede de Organizações Não Governamentais como uma prática inserida na idéia de administrar as tensões sociais decorrentes da aplicação do modelo neoliberal. É uma concepção conservadora de políticas públicas que não toca na questão social que é a redistribuição de riquezas. Tal concepção é uma forma do projeto neoliberal não ser ameaçado por contestações ou explosões de revolta brotadas pelo agravamento da concentração de renda e exclusão social.

38. É preciso implementar uma discussão sobre a concepção das políticas públicas generalistas e o caráter do funcionamento dos equipamentos sociais. Articuladas com medidas de ação afirmativa, as políticas públicas generalistas ou horizontais necessariamente tem que ser repensadas. Por exemplo, as prioridades, os locais e horários de funcionamento, os objetivos de tais políticas. Hoje, é visível que parte significativa dos equipamentos sociais estão situados em bairros de classe média; há um despreparo de muitos técnicos e funcionários destes equipamentos sociais no tratamento com o público; os recursos são mal aplicados, etc. As políticas verticais trarão demandas que deverão ser tratadas pelos instrumentos de políticas horizontais o que, necessariamente, forçará a mudança do seu caráter. Esta concepção de políticas públicas de combate ao racismo demarca um campo político e ideológico importante para a Unegro que pode dar grandes contribuições para este debate. Por isto, a bandeira da ampliação das políticas públicas é necessária e importante para demarcar campos.

Racismo e Mercado de Trabalho

39. O I Congresso da Unegro, realizado em Jacareí – SP em 2000, diagnosticou, com precisão, as formas de manifestação do racismo no mercado de trabalho. Desde a abolição da escravatura em 1888, o mercado de trabalho assalariado no Brasil organizou-se de forma a ser o principal mecanismo de exclusão com base racial. Desde a disseminação da idéia racista da incapacidade dos afrodescendentes de trabalharem como assalariados até os critérios de boa aparência presente ainda hoje em grande parte dos anúncios de “emprego procurados”, o racismo sempre funcionou como um instrumento de seleção para o ingresso no mercado profissional.

40. 25 - Por esta razão, o racismo no mercado de trabalho torna-se mais intenso quando as crises econômicas do capitalismo brasileiro restringem a oferta de vagas. Com mais pessoas procurando menos vagas disponíveis, os critérios racistas de seleção se fortalecem. Os trabalhadores têm espaços reduzidos no mercado profissional, seja porque, em media, têm grau de instrução menor que o exigido para determinados cargos ou ainda porque determinadas funções, em especial as de comando e de tratamento com o publico, são praticamente vedadas aos afrodescendentes.

41. 26 - Os períodos em que os trabalhadores afrodescendentes conseguem uma inserção no mercado profissional são exatamente aqueles em que há um período de expansão econômica. Nestes momentos, há uma redução do desemprego dos trabalhadores afrodescendentes, embora os mecanismos racistas continuem atuando na seleção para determinadas funções e mesmo na ascensão profissional interna dentro de uma empresa. Por isto, mesmo nestes momentos “favoráveis”, há uma nítida diferença de renda entre brancos e negros, mesmo naquelas funções em que grau de instrução exigido é semelhante . Concluímos, disto, que o racismo atua como uma forma de redução da massa salarial, favorecendo a superexploração do capital.

42. 27 - O próprio desenvolvimento industrial brasileiro nos anos 60 e 70, quando o país chegou a crescer a taxas anuais de 11 a 12% foi construído, principalmente, por um modelo concentrador de renda, seguindo a mesma lógica existente no período colonial quando as bases iniciais de acumulação primitiva do capital foram instaladas no país. Boa parte da infra-estrutura brasileira foi construída neste período às custas da integridade física, da saúde e da exploração brutal do trabalhador afrodescendente. Por isto, embora os momentos de crescimento econômico sejam importantes como ponto de partida para reduzir o desemprego, ele por si só não é suficiente para garantir uma vida digna para os trabalhadores afrodescendentes. Deste crescimento, sobram apenas migalhas...

43. 28 - Porém, vivemos atualmente em um momento bem distinto deste. A contração do mercado profissional, em virtude do modelo neoliberal adotado no país, fez reduzir até mesmo as opções de vagas. Um contingente maior de afrodescendentes tem como opção única a entrada no sub-emprego, ficando sujeito às mais bárbaras formas de exploração e sem nenhuma garantia de direitos ou proteção legal. Especial atenção deve ser dada à condição da mulher negra que, muitas vezes obrigada a garantir sozinha o sustento da família, é forçada a aceitar as condições mais humilhantes de trabalho.

44. 29 - Um outro segmento que está sendo forçado a aceitar condições humilhantes de exploração são as crianças negras . Também fruto do desemprego e sub-emprego de seus pais e mães, as crianças ingressam cedo no mercado profissional, a despeito da legislação proibir o trabalho antes dos 16 anos e o Brasil ser signatário de convenções internacionais de erradicação do trabalho infantil . Abandonando a escola ou mesmo sequer ingressando nela, esta criança em tal situação é um indicador de retroalimentação da miséria, pois também terá condições mais desfavoráveis para o ingresso no mercado profissional quando for adulto.

45. O serviço público, tradicionalmente uma opção mais favorável para o ingresso dos afrodescendentes no mercado formal, sofreu transformações nos últimos anos. Primeiro, foi o enxugamento do contingente do funcionalismo público em função da redução do estado pregado pela ideologia neo liberal. Segundo, foi a terceirização de diversas funções de carreira do serviço público que modificou os critérios para o ingresso, saindo do concurso público (em que não há a seleção “visual”, portanto diminuindo o critério racista da seleção) para processos seletivos sem transparência. E, terceiro, com a redução da oferta de vagas, transformando os poucos concursos públicos em funis cada vez mais estreitos, dificultando o acesso daqueles que não puderam contar com o sistema de ensino de qualidade.

Educação e Desigualdade Racial

46. Uma das características universais dos países subdesenvolvidos é a baixa escolarização, estudos divulgados pela ONU mostram a sincronia existente entre pobreza e investimento deficitário em educação. No Brasil o quadro é assustador, seu potencial econômico (está entra as dez maiores potência econômica do planeta) não é proporcional ao investimento governamental em educação. No ranking das 129 nações pesquisadas pela Unicef , no campo da educação básica, o Brasil está em último lugar, países como Gabão, Lesoto, Paraguai estão na nossa frente. De cada 100 crianças matriculadas no ensino fundamental, apenas 39 chegam a 5ª série quando o ideal (dado nosso PIB) seria de 88 crianças. Se compararmos com Cuba onde cada 100 crianças matriculadas 91 atingem a 5ª série e o esperado é 73 vemos o quanto temos a avançar e constatamos a perversidade do Estado que exclui grande parcela da sociedade brasileira utilizando o déficit educacional.

47. O neoliberalismo impôs novas posturas em quase todos os campos de organização social, sua presença na educação é nefasta, pois a lógica mercadológica passa a ser a referência perseguida no campo educacional. A escola tem ser entendida como um espaço de sociabilidade, formação de cidadãos e de capacitação, acessá-la significa exercer um direito humano – de desenvolver-se intelectualmente, moralmente e socialmente. No entanto transformaram a escola em um espaço de oportunidade, competição e qualificação de mão de obra. Um espaço onde se adquire habilidades que o instrumentalize para atender o cliente, onde se aprende como proceder na fábrica, no departamento, na repartição pública. Essa lógica exige que as prioridades educacionais sejam impostas pelo mercado, tanto no conteúdo pedagógico como no investimento em estrutura, se o acirramento da crise do capitalismo faz com que o mercado de trabalho se utilize de critérios racistas para seleção de vagas, o mesmo acontece no elenco de prioridades para investimento público na educação. Como resultado tem-se déficit de vagas nas periferias, sucateamento físico das escolas, currículo que ignora as diferenças, retroalimentando todas as mazelas provocadas pelo racismo.

48. Com uma população economicamente ativa de 80 milhões, o nosso país tem aproximadamente 20 milhões de analfabetos acima de 15 anos (13% da população conforme dados do IBGE/1999). Entre os 198,5 milhões de habitantes, 65 milhões não possuem o ensino fundamental completo. Só para ilustrar a gravidade da situação deve-se salientar que o atual Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do país, integra esse contingente.

49. Na educação superior, o total de estudantes matriculados no Brasil (7,7% dos jovens na faixa etária de 18 a 24 anos), situa-se entre os menores da América Latina. Desses estudantes, 1/3 está matriculado em instituições públicas e 2/3 em instituições privadas.

50. O aumento no número total de instituições nos últimos oito anos foi de 38% mas o setor privado cresceu 51%. O número de universidades federais permaneceu estável no período, enquanto o de universidades privadas cresceu 44%. Conclusão: há um processo em curso de privatização do ensino superior no país, pois as instituições privadas que, em 1994, correspondiam a 74% do total, em 2000 já chegavam a 85%.

51. Esses dados iniciais comprovam a tese que afirma a existência de um processo gradativo perverso de exclusão da esmagadora maioria da população brasileira de todas as faixas etárias, do conhecimento formal em todos os níveis (infantil, fundamental e superior).

52. Se isso é verdade no plano universalista, onde atingem todas a raças e etnias, torna-se ainda mais verdadeiro e dramático no plano específico da desigualdade racial. Em recente estudo (2002) sobre as desigualdades raciais no Brasil, as pesquisadoras do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão do Governo Federal, Luciana de B. Jacccoud e Nathalie Beghin, constataram a seguinte situação sobre a realidade educacional entre negros e brancos:

53. Diferença em anos de estudo – Mostra-se mais ou menos estável, em torno de dois anos, ao longo do tempo, ou seja, na década de 1990, os negros não conseguem alcançar mais do que 70% da média de anos de estudo dos brancos;

54. Taxa de analfabetismo – mesmo havendo redução ao longo dos anos da diferença entre brancos e negros, mantém-se constante a diferença porcentual nessa taxa (cerca de 10% a favor dos brancos);

55. Taxa de escolarização líquida – Definida como a razão entre crianças na idade escolar matriculadas no ciclo escolar no qual deveriam estar, mostra que houve uma universalização do acesso ao ensino fundamental, observando-se uma diminuição clara do hiato entre brancos e negros, que caiu de 12 para 3 pontos porcentuais. No entanto, o mesmo não se verifica no acesso ao ensino médio; a distância aumentou de 18 para 26 pontos; isso ocorreu apesar de a população negra de 15 a 17 anos ter quase que triplicado seu ingresso no ensino médio;

56. Defasagem idade-série – Nos últimos anos (1992-2001), verificam-se tênues diminuições nas desigualdades entre brancos e negros, seja no ensino fundamental, seja no ensino médio. No entanto, as perspectivas de progressão e desempenho dos negros ficam bastante aquém das dos brancos.

Algumas conclusões desse estudo:

57. Diferenças raciais refletem uma discriminação ocorrida no passado. Alunos negros seriam oriundos de famílias com pais com níveis de instrução menores que os pais de alunos brancos, o que condicionaria seu desempenho na escola. Dessa forma, os diferenciais observados estariam refletindo a reprodução das desigualdades históricas;

58. A maior parte do diferencial racial pode ser atribuída à discriminação na escola, constataram que mesmo se os negros tivessem a mesma origem social dos brancos, a diferença de escolaridade ainda se manteria em torno de 2,27 anos de estudo em favor dos últimos, o que comprova a tese de estudiosos do tema, sobre o ambiente escolar formal como reprodutor contumaz de desigualdades raciais no Brasil.

Mulher Negra e Educação

59. As mulheres representam 51,3% da população com mais de cinco anos de idade e 50,5% dos(as) estudantes. Cerca de 7% nunca freqüentaram escolas; 59% não passaram do ensino fundamental; 27% chegaram ao ensino médio e 6% têm alguma formação superior. Cerca de 30% deixaram de estudar devido à necessidade de trabalhar; 18% por causa de gravidez e 7% para criar os filhos e filhas. Em função do trabalho, 32% nunca freqüentaram a escola.

60. As mulheres apresentam maior escolaridade (23,2%) do que os homens (20,1%) –-. Porém, um maior nível de instrução não se traduz em maiores rendimentos, pelo contrário. No caso das mulheres negras, devido à dupla discriminação (gênero e raça), a situação é muito mais grave. Entre as pessoas não-alfabetizadas acima de 40 anos, as mulheres estão em desvantagem em relação aos homens, sendo que, as mulheres negras representam mais do dobro das mulheres brancas. Milhões de meninas negras enfrentam diversos preconceitos em sala de aula, pois em função do mito da “democracia racial”, predomina um racismo velado e hipócrita, produtor de impactos negativos na auto-estima e na identidade, transformando-se em uma barreira poderosa para o desenvolvimento pleno das crianças e adolescentes negras do sexo feminino em particular.

61. Sem dúvida, o quadro de exclusão educacional é parte do processo de exclusão da população pobre e não-branca brasileira dos espaços de poder de nossa sociedade. Configuram uma tentativa de extermínio institucional que em escala crescente contribui para a intensificação do extermínio físico sistemático dessa camada populacional levado a cabo pelas classes dominantes nestes 500 anos de existência do Brasil.

As cotas nas universidades

62. A polêmica proposta de instituição de cotas para afrodescendentes nas universidades foi a que mais despertou revolta em segmentos da sociedade brasileira dentre os vários mecanismos de ações afirmativas que passou a ocupar espaço no cenário político brasileiro, particularmente após a Conferência de Durban, em 2000.

63. Por que isto ocorre? A universidade é o centro de produção das lideranças do país. Particularmente as universidades públicas e alguns outros centros de excelência na pesquisa servem como as instituições formadoras dos que vão comandar o país futuramente – é de lá que saem os pensadores no campo político, econômico, social, tecnológico. Toda a política neoliberal implementada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, foi pensada e executada por expoentes do curso de Economia da PUC/RJ, um destes centros de excelência.

64. Ainda no campo da economia, temos o grupo de economistas conhecidos como “heterodoxos” reunidos na Unicamp, responsáveis durante um certo tempo pela política econômica aplicada pelo governo Sarney em 1986 e 1987. O próprio Fernando Henrique Cardoso foi produto do círculo de intelectuais que se articulou em torno da Faculdade de Filosofia da USP no antigo prédio da Rua Maria Antônia. É para isto que vem servindo as grandes universidades brasileiras – para a formação de uma elite dirigente.

65. O sistema de acesso a estas universidades é extremamente perverso, embora travestido de democrático. O sucateamento da escola pública de ensino básico e médio que perde a léguas de distância da escola particular deste mesmo nível faz com que os estudantes oriundos do sistema público de ensino concorram em condições desfavoráveis a um vestibular cada vez mais disputado. Com isto, historicamente, os mais abastados conseguem as vagas nos principais cursos superiores e, com isto, estas instituições especializam-se em atender as demandas deste tipo de público. Por exemplo, grande número de cursos em instituições público de ensino superior não funciona à noite, impedindo o estudante que trabalha de cursá-los. Mesmo os poucos cursos que funcionam no período noturno têm condições estruturais inferiores aos do período diurno – os serviços funcionam precariamente, boa parte dos eventos de complementação acontecem durante o dia, entre outros. Assim, temos uma instituição pública de ensino superior que se conforma com a elite que a freqüenta e se direciona para o atendimento das suas demandas.

66. Um dado interessante é que, paralelo a esta situação, proliferou desde os tempos do regime militar, um sistema de ensino superior de qualidade inferior, nas mãos de empresas privadas, que se por um lado tem um sistema de acesso mais fácil devido a pequena concorrência nos seus processos seletivos, por outro penaliza o estudante com as mensalidades incompatíveis com a renda do aluno e uma baixa qualidade de ensino. O sistema de ensino superior vem formando duas classes de profissionais com nível universitário – aqueles que vão ocupar os cargos de comando na sociedade, oriundos na maior parte das instituições de excelência, a maioria públicas; e os demais que vão ocupar o que “sobra” das funções que exigem diploma de nível superior (ou nem isto).

67. A população afrodescendente, em virtude do racismo construído histórica e sistemicamente no Brasil desde os períodos da escravidão, se coloca numa situação extremamente desfavorável. Parcela desta população que, por uma série de motivos, conseguem, apesar do racismo, uma pequena ascensão social, se colocam no segundo escalão do nível superior. Vejam bem esta afirmação: os afrodescendentes que freqüentam as instituições de ensino superior privadas ainda são minoria entre o universo dos afrodescendentes, cuja maioria sequer consegue terminar o segundo grau. Em outras palavras, temos que o racismo limita barbaramente as possibilidades de ascensão social dos jovens afrodescendentes a despeito de qualquer avaliação de talento, qualidade ou competência. As estruturas racistas colocam, claramente, limites a mobilidade social deste segmento populacional.

68. Há também uma conseqüência clara para a universidade pública – a conformação com as demandas de uma elite branca a faz afastar cada vez mais da sociedade que a sustenta. O pensamento produzido nestas instituições, com raras e honrosas exceções, tem servido para retroalimentar o sistema racista que vigora no país há anos, independente das vontades ou do posicionamento dos seus agentes. Um exemplo disto temos no campo da educação. Vários pesquisadores afrodescendentes têm alertado para as dificuldades que professores e demais educadores enfrentam para tratar de conflitos raciais que ocorrem em sala de aula, entre crianças. Ou mesmo para discutir uma visão menos preconceituosa dos africanos escravizados no Brasil no período da escravidão. Ou ainda o pequeno número de professores capacitados para ministrar aulas sobre história da África, conteúdo já implementado legalmente nos currículos escolares. Quem forma os educadores e os professores? As universidades. O pouco que temos de estudos sobre a questão racial nas universidades decorre do esforço de um pequeno número de afrodescendentes que conseguiram superar as barreiras no ingresso nas instituições de ensino superior e passaram a pesquisar tais questões. Porém, entendemos que tal temática não pode continuar “marginal” no pensamento produzido nas instituições de ensino superior. Por entendermos que o racismo é estrutural, é um dos pilares de sustentação do sistema social no Brasil, ele deve ocupar o centro das preocupações da pesquisa universitária. E a participação maior de estudantes afrodescendentes nas universidades será uma condição objetiva importante para garantir tal situação.

69. Finalmente, um dado importante da implementação das cotas é explicitar o racismo que existe no país mas é vergonhosamente escondido na sociedade. O Brasil é um país cuja sociedade admite a existência do racismo mas que seus cidadãos, individualmente, neguem serem racistas ou preconceituosos. Tal situação ocorre, em parte, pelo mito da democracia racial que vigorou no país durante muito tempo e também pela confusão que se faz de que o racismo se manifesta somente por políticas explícitas de segregação como vigorou na África do Sul no apartheid. Mas também demonstra que a maioria da sociedade branca não se sente responsável pelo racismo vigente no país. Muitos não admitem que os seus privilégios são obtidos com base nos mecanismos racistas que excluem potenciais concorrentes nas vagas no mercado profissional, no ensino, entre outros.

70. 46 - As revoltas explicitadas contra as cotas nas universidades demonstram que o espaço reservado para a formação da elite dirigente é vedado aos afrodescendentes na visão dos preconceituosos de plantão. Dividir o bolo neste espaço implica em admitir a divisão do poder – daí a revolta ser bem maior quando se trata de cotas nas universidades. Os argumentos contra as cotas dividem-se entre explicitamente preconceituosos (vai cair a qualidade no ensino superior) e descomprometidos (o problema é o ensino básico e médio, não é a universidade).

71. 47 - Não achamos que a implementação das cotas nas universidades é a panacéia para resolver os graves problemas do racismo estrutural no país. Entretanto, acreditamos que tal medida toca em uma das feridas da estrutura social racista no país.

Direitos Humanos e Cidadania: Uma Avaliação Pós-Durban

72. O racismo, a discriminação racial, a xenofobia, o sexismo e outras formas de intolerância, estão estreitamente vinculados à pobreza, o subdesenvolvimento, a marginalização, a exclusão social e as desigualdades econômicas. A falta de oportunidades econômicas, de autonomia, de acesso aos recursos sociais, econômicos, educacionais e culturais, bem como de serviços sociais de apoio e a limitada participação no processo de tomada de decisões constituem um quadro sócio-histórico no qual estão sujeitos os negro e as mulheres. Tal condição engendra na sociedade brasileira e em particular no Estado brasileiro resistências, obstáculos e oposições a todas as ações implementadas com vistas à promoção de oportunidades de inserção social em condições de igualdade a toda a população. Essas condições são expressas principalmente na falta de vontade política, na inexistência de uma legislação eficiente, na falta de estratégias de aplicação de medidas concretas por parte do Estado, bem como pela permanência de atitudes preconceituosas, racistas e baseadas em estereótipos negativos.

73. A “III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata” ocorrida em 2001, na Cidade de Durban, África do Sul, reafirma que os Estados nacionais têm o dever de proteger e promover os direitos humanos e as liberdades fundamentais das vítimas do racismo, da discriminação racial, xenofobia e intolerâncias correlatas e que devem:

74. reconhecer que os afrodescendentes têm sido durante séculos vítimas do racismo, da discriminação racial, da negação histórica de muitos dos seus direitos, e afirma que devem ser tratados com eqüidade e respeito de sua dignidade, e que não devem sofrer discriminação de qualquer tipo. Portanto, se deve reconhecer seus direitos a cultura e à própria identidade; a participar livremente e em igualdade de condições na vida política, social, econômica e cultural; no desenvolvimento de um marco de duas próprias aspirações e costumes; a ter, manter e fomentar suas próprias formas de organização, seu modo de vida, cultura, tradições e manifestações religiosas; manter e usar seus próprios idiomas; a proteção de seus conhecimentos tradicionais e seu patrimônio cultural e artístico; ao uso, desfrute e conservação dos recursos naturais renováveis de seu habitat e participar ativamente da elaboração, aplicação e desenvolvimento de sistemas e programas de educação, inclusive os de caráter específico e particular; e quando proceder, ter direito às terras que habitam desde os tempos ancestrais;

75. reconhecer que em muitas partes do mundo, os africanos e os afrodescendentes tem de fazer frente aos obstáculos como resultado de prejuízos e discriminações sociais que prevalecem nas instituições públicas e privadas e se comprometer a trabalhar para erradicar todas as formas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerâncias correlatas com que se deparam africanos e os afrodescendentes;

76. reconhecer o valor e a diversidade da herança cultural dos africanos e afrodescendentes e afirmar a importância e a necessidade de que seja assegurada sua total integração à vida social, econômica e política, visando a facilitar sua plena participação em todos os níveis dos processos de tomada de decisão;

77. reconhecer a existência de sua população de descendência africana e as contribuições culturais, econômicas, políticas e científicas feitas por esta população e a persistência do racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata que os afeta especificamente, reconhecendo que ... a desigualdade histórica em termos de acesso à educação, ao sistema de saúde, à moradia tem sido uma causa profunda das disparidades sócio-econômicas que os afeta.

78. Assim, exorta os Estados a que trabalhem no nível nacional e em cooperação com outros Estados, com as organizações, os programas regionais e internacionais pertinentes ao fortalecimento dos mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos das vítimas do racismo, da discriminação racial, da xenofobia e outras formas de intolerância.

79. Quanto às medidas para a prevenção e proteção contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e outras formas de intolerância, enfatiza o vínculo entre direitos humanos e o respeito à diversidade cultural, instando os Estados a adotar medidas legislativas, judiciais, normativas, administrativas e de outros tipos, inclusive medidas e estratégias afirmativas e positivas que venham a criar as condições necessárias à participação efetiva da comunidade de origem africana no processo de tomada de decisões e no exercício dos direitos civis, culturais, econômicos, políticos e sociais, posto que essa luta é uma responsabilidade primordial do Estado, devendo este desenvolver planos de ação nacional para promover a diversidade, a igualdade, a eqüidade, justiça social, a igualdade de oportunidades, a participação de todos e, principalmente, promover um maior conhecimento e um maior respeito pela sua herança histórica e cultura.

80. De sua parte, a sociedade civil organizada se empenha na redefinição de estratégias para o combate às desigualdades tendo entre suas prioridades o planejamento, readequação e ampliação das políticas públicas. Porém os dados macrológicos divulgados por instituições de reconhecida credibilidade atestam, em linhas gerais, as insuficiências das medidas governamentais para reverterem o cenário radiográfico das condições de vida e morte dos não-brancos na sociedade brasileira: a população afrodescendente está distribuída territorialmente em localidades de baixa potencialidade competitiva; elevadas taxas de repetência e abandono escolares, menor expectativa de vida, altos índices de mortalidades infantil, e trabalho insalubre e de baixa remuneração.

81. Esse cenário de adversidades tornou-se mais dantesco com as medidas de desmontem do parco sistema de proteção social, via privatização e desmobilização dos investimentos nos aparelhos sociais, intensificando o movimento de exclusão dentro da exclusão.

82. No campo das medidas governamentais, o que se constata é um divórcio, um hiato entre as medidas adotadas e as condições materiais de vida dos afrodescendentes. O problema central está no paradigma adotado de promoção e as condições materiais de vida dos afrodescendentes. Há um cenário que opõem dinamicamente “redatores de uma opereta farsante” e “atores reais de carne, osso e vida”. As ações políticas governamentais são, efetivamente, incapazes de romper com o círculo de aço que aprisiona o fluxo de vida dos afrodescendentes. O problema central está no paradigma adotado de promoção das “igualdades de oportunidades” no plano institucional.

83. Partindo do pressuposto que uma política de direitos humanos é um conjunto de medidas voltadas para garantir uma igualdade e justiça no tratamento de todos os cidadãos, independente da sua condição, regulando as ações controladoras e de exercício do poder das instituições governamentais, temos que o desrespeito aos direitos humanos no caso brasileiro é motivado, principalmente, pelo alto grau de injustiça social que atinge prioritariamente a população negra, ou seja, apesar da adoção de políticas compensatórias intensifica-se a exclusão desta população devido a globalização neoliberal e ao esvaziamento das políticas públicas generalistas.

84. Um dos grandes desafios para a consolidação da democracia brasileira, permeada de justiça social, é o amadurecimento de uma sociedade em que as diversas comunidades e seus diversos matizes, as diversas pessoas, independentemente de suas características culturais e condições físicas e etárias, venham enfim a atuar na sociedade em igualdade de oportunidades e condições.

85. Sendo assim entendemos que é necessária uma revisão radical da concepção que norteia as políticas de segurança pública voltando-a para um sistema de proteção do direito ao exercício da cidadania.

Crianças, Adolescentes e Juventude

86. “Seja qual for o ângulo pelo qual se examinem as situações características do período atual, a realidade pode ser vista como uma fábrica de perversidade. A fome deixa de ser um fato isolado ou ocasional e passa a ser um dado generalizado e permanente. Ela atinge 800 milhões de pessoas espalhadas por todos os continentes, sem exceção. Quando os progressos da medicina e da informação deviam autorizar uma redução substancial dos problemas da saúde, sabemos que 14 milhões de pessoas morrem todos os dias, antes do quinto ano de vida.

87. Dois bilhões de pessoas sobrevivem sem água potável. Nunca na história houve um tão grande número de deslocados e refugiados. O fenômeno dos sem-teto, curiosidade na primeira metade do século XX, hoje é um fato banal, presente em todas as grandes cidades do mundo. O desemprego é algo tornado comum. Ao mesmo tempo, ficou mais difícil do que antes atribuir educação de qualidade e, mesmo, acabar com o analfabetismo. A pobreza também aumenta. No fim do século XX havia mais 600 milhões de pobres do que em 1960; e 1,4 bilhão de pessoas ganham menos de um dólar por dia. Tais números podem ser, na verdade, ampliados porque, ainda aqui, os métodos quantitativos da estatística enganam: ser pobre não é apenas ganhar menos do que uma soma arbitrariamente fixada; ser pobre é participar de uma situação estrutural, com uma posição relativa inferior dentro da sociedade como um todo. E essa condição se amplia para um número cada vez maior de pessoas. O fato, porém, é que a pobreza tanto quanto o desemprego são considerados como algo ‘natural’, inerente ao seu próprio processo. Junto ao desemprego e à pobreza absoluta, registre-se o empobrecimento relativo de camadas cada vez maiores graças à deterioração do valor do trabalho (...) Vivemos num mundo de exclusões, agravadas pela desproteção social, apanágio do modelo neoliberal, que é, também, criador de insegurança.

88. Na verdade, a perversidade deixa de se manifestar por fatos isolados, atribuídos a distorções da personalidade, para se estabelecer como sistema (...) Incluam-se também, nessa lista dos processos características da instalação do sistema de perversidade, a ampliação das desigualdades de todo gênero: interpessoais, de classes, regionais, internacionais. Às antigas desigualdades, somam-se novas.”

89. A discussão da infância, adolescência e juventude estão subordinadas a estrutura capitalista moderna, que tem como característica o aprofundamento da diferença econômica entre países ricos e pobres. O agravamento da fome nos países periféricos e em desenvolvimento, a feminização e infantilização da pobreza, o crescimento dos conflitos, a imposição da força como forma de subordinar o terceiro mundo e se apropriar de suas reservas naturais e mercados consumidores. Perversidade, terminologia encontrada por Milton Santos, é a mais adequada que encontramos para qualificar a escolha do rumo dado ao capital pela elite burguesa mundial.

90. Efetivamente o desmonte do capitalismo e sua conseqüente substituição por um outro sistema - em que raça e gênero não sejam pressupostos para mobilidade ou imobilidade social - onde as classes são extintas e reine a solidariedade entre as pessoas, é o que a Unegro busca. A construção dessa sociedade passa pela disputa política cotidiana, na qual, a intervenção do movimento negro, feminista, estudantil, sindical, ecológico tem que se fazer presente. É com esse espírito e entendimento que a Unegro discute a questão da infância e juventude brasileira.

91. No Brasil, há particularidades que devem ser mensuradas. Esse país foi construído pelos braços de negros e negras escravizadas, sob condições desumanas, durante 350 anos foram a única mão de obra existente. Esse período histórico marcou o ethos da elite brasileira, e, conseqüentemente, das camadas médias e populares. Somos uma sociedade culturalmente hierarquizada, classista, racista, machista e adultocêntrica. A desconstrução desse ser social é uma tarefa tão árdua quanto a distribuição de riqueza. Motivo pelo qual a presença crítica de militantes do movimento social de negro em todos espaços político e social é importante.

92. No I Congresso Nacional da Unegro realizado em Jacareí-SP de 5 a 7 de maio de 2000, desenvolvemos o título “O genocídio como exterminador do presente da juventude negra”, momento em que diagnosticamos a situação da juventude no Brasil, em especial a juventude negra. Pontuamos elementos inibidores do pleno exercício da cidadania e do desenvolvimento da juventude afrodescendentes e apontamos caminho para superação das dificuldades impostas pelo sistema.Hoje faz-se necessário reafirmar o diagnóstico do I Congresso e avaliar o impacto de políticas públicas defendidas, tais como: bolsa escola, renda mínima, etc.

Situação Familiar

93. O conceito de família é uma construção moderna, data do iluminismo, momento em que a burguesia, ávida pelo poder que se encontrava com os senhores feudais, “constrói um mundo a sua imagem e semelhança” (manifesto comunista) negando todos os valores antigos. A construção da família respondia a necessidade de concentração de capital a pequenos grupos. Para isso foi necessário um grau acentuado de hierarquização na célula familiar. Em diferentes experiências africanas a necessidade de construção da “família” era de preservação do núcleo social, o sentido hierárquico não estava presente e não se fazia necessário. Hoje, no Brasil, o conceito burguês de família não se enquadra na organização nuclear afrodescendente. Ao longo da história as famílias negras foram se constituindo sem necessariamente incorporar o modelo pensado pela elite burguesa, o patriarcalismo. As mulheres sempre tiveram uma forte presença, vencendo a hierarquia construída para submetê-la.

94. Mas a cultura machista marca a cultura brasileira e está presente na organização familiar de todo o povo, com reflexos indiscriminados sobre a mulher negra. Há um desencontro entre a família idealizada e a real, alto grau de irresponsabilidade paterna e de mulheres chefes de família responsável pela manutenção da casa, especialmente entre as mulheres negras.

95. Há ainda uma condição de escravidão doméstica, o que exige a reavaliação do papel da mulher, principalmente das mulheres negras, no espaço familiar e a adoção de políticas específicas para superar este quadro.

96. 66 - O recrudescimento do neoliberalismo vem atingindo de forma violenta a família brasileira, e aprofundando a desigualdade entre negros e brancos. Segundo dados da PNAD de 1999 34% da população brasileira vivia em famílias com renda inferior a linha de pobreza e 14% inferior a linha de indigência. A constituição da pobreza tem um direcionamento racial. A mesma PNAD mostra que em 1999 os negros representavam 45% de população brasileira e correspondiam a 64% dos pobres e 69% dos indigentes. Enquanto que os brancos eram 54% da população e 36% pobres e 31% indigentes. A incidência da pobreza se concentra desproporcionalmente nas crianças e na juventude: 43% nas crianças de 0 a 14 anos, sendo que essa faixa corresponde 29% da população. E uma oscilação de 40% e 30% dos 12 aos 20 anos de idade. As mulheres percebem salários inferiores, mesmo exercendo atividade similar e tendo mais anos de escolarização. Há um impacto simultâneo da pobreza sobre os afrodescendentes, mulheres e crianças.

97. A miserabilidade e o precário investimento governamental em políticas públicas, traz conseqüências graves ao presente e futuro das famílias afrodescendentes. Jogadas a própria sorte, sem esperança e oportunidades, resta a marginalização. A exacerbação do racismo estrutural traz como conseqüência à família negra: a sua desestruturação, alcoolismo, violência intrafamiliar (vitimando exclusivamente mulheres e crianças), ruptura familiar, desemprego, abuso de trabalho infantil, abandono dos filhos, precarização da saúde, baixa escolaridade, desconhecimento de seus direitos, baixa politização, etc. A essa demanda a Unegro entende que é necessária a efetiva presença do Estado. Com investimento público em políticas sociais básicas (saúde, educação, lazer, etc), políticas de complementação de renda (bolsa escola, renda mínima, incubadora de microempresa, etc) e políticas de ação afirmativas (valorização histórica, cotas, incentivo a pequeno empresário afrodescendente, etc). A simultaneidade de investimento público dirigido à população negra é a forma mais segura de enfrentar o racismo estrutural que vitimiza a família negra e conseqüentemente a infância e juventude.

Direito ã Cidade e os laços de comunidade

98. Brasil teve um importante avanço no trato com a política habitacional com a instituição do estatuto da Cidade, que entre outros benefícios prevê o direito à regalização fundiária, a obrigatoriedade da função social da propriedade, a obrigatoriedade da realização de um Plano Diretor Urbano em municípios com mais de 20 mil habitantes e a garantia da participação popular na sua elaboração. Este instrumento é de fundamental importância para a sociedade, principalmente para os pobres e a população negra que habitam em condições constrangedoras em ocupações, terrenos irregulares em localidades desprovidas de equipamentos públicos, de serviços de qualidade.

100. A maioria dos governantes dos grandes centros urbanos invertem prioridades nos investimentos. Discursam que “governam para todos”, mas esquecem os que mais necessitam do Estado. Os governantes quando não as priorizam as áres e os grupos mais despossuídos da população, governam mais para os ricos.

101. Nas periferias das metrópoles vive grande parte dos afrodescendentes. Sua vida comunitária se dá em meio a desassistência do Estado. Formam-se as escolas comunitárias, os clubes de mães, as associações de moradores, organizações que buscam coletivamente resolver problemas enfrentados por aquele segmento social. A comunidade é um importante espaço de sociabilização e organização política.

102. A lógica do “governo para todos” deveria permitir a prioridade da construção de uma escola, creche, posto de saúde, espaços poliesportivos, etc nas áreas mais fragilizadas das cidades. É nas periferias que encontramos coleta de lixo, transporte coletivo, iluminação pública, segurança, saneamento básico deficitários. Retomando Milton Santos, “ser pobre não é apenas ganhar menos do que uma soma arbitrariamente fixada; ser pobre é participar de uma situação estrutural, com uma posição relativa inferior dentro da sociedade como um todo” . A ausência do Estado na periferia aumenta o grau de pobreza de seus moradores. Ser criança, adolescente e jovem nessas comunidades significa conviver com a pobreza e suas conseqüências.

103. A Unegro defende um Estado que cuide de quem precisa, que através de investimento, distribua a riqueza coletivamente produzida, que seja um regulador das relações entre as classes sociais. Sua presença nas periferias é condição básica para diminuição da pobreza. Ela permite a chegada de escolas, universidades, bibliotecas, postos de saúde e hospitais, praças e parques para lazer, teatro e muito mais. A periferia não pode continuar sendo preterida, é nela que vive a ampla maioria da juventude afrodescendente carente de políticas de reparação.

104. É preciso fortalecer a luta dos sem teto, a busca de que o Estatuto da Cidade se traduza no estabelecimento de cidades justas, fraternas e solidária.

Trabalho e exploração da criança e do adolescente

105. O Eca – Estatuto das Crianças e dos Adolescentes em seu artigo 60 diz: “ É proibido qualquer trabalho a menores de 16 (dezesseis) anos de idade, salvo na condição de aprendiz. A partir de 14 (quatorze) anos.” Quando a sociedade civil, especialmente os movimentos populares, na construção do Eca, pensou nesse artigo, tinha como princípio a Doutrina da Proteção Integral, ou seja, responsabilizar a família, o Estado e a comunidade em cuidar na integralidade as demandas da infância e adolescência. Entendia-se – corretamente - que esse período da vida deve ser voltado a construção cognitiva e desenvolvimento da criança e do adolescente. É o momento em eles que constróem referencias, plano de vida, alteração física do corpo, surge as dúvidas, socializam-se e definem caráter. Nesse período a sociedade tem que assegurar condições básicas que permita o desenvolvimento da criança e do adolescente. Essas condições pressupõem: alimentação, escolarização, lazer, moradia, vestuário, acesso a manifestação das culturas, etc.

106. Há consenso na sociedade que o período da infância e adolescência deve ser voltado ao estudo e preparo para maioridade – tanto que a iniciação profissional da elite e da classe média se dá após os 18 anos. A precocidade no ingresso ao mercado de trabalho surge devido as condições econômicas precárias das famílias, e não por motivo filosófico. De modo que, a vitimização inicia-se sobre a organização familiar. No Brasil, segundo o PNAD de 1995, num universo de 17.524.879 crianças de 10 a 14 anos 23,1% estão inseridas no mercado de trabalho, das quais 6,1% estão fora da escola. Não há meios de mensurar o trabalho infantil socialmente aceito (ajuda aos pais na oficina, no comercio e no trabalho informal) e as atividades nas ruas (nos faróis, cuidando de carro, engraxate, etc), o que dá uma considerável margem de erro quanto ao universo de trabalhadores infantil.

107. Apesar da gravidade dessa questão (prejuízo no desenvolvimento físico e psicológico), o trabalho infantil é uma ponta da problemática vivida por crianças e adolescentes nascidas em famílias vulnerabilizada social e economicamente. A falta de renda é argumento concreto para que se sujeitem crianças e adolescentes a mendicância, aliciamento por traficantes de drogas (principalmente em grandes metrópoles), abuso sexual comercial, através da prostituição, pornografia, tráfico para fins sexuais e turismo sexual. Segundo pesquisa coordenada pelo Cecria , as vítimas do abuso sexual comercial “destaca-se a idade entre 12 e 18 anos. A maioria é afro-descendente e migra internamente ou para fora do país”. Nota no resultado desse trabalho a racialização do abuso a crianças e adolescentes.

108. A Unegro entende a complexidade desse tema. A estrutura capitalista é grande produtora de violados. Somente uma grande mobilização social tem força para barrar esse processo de putrefação dos Direito Humanos da juventude brasileira. Cotidianamente, deve-se cobrar do poder público: campanhas informativas, parceria com a sociedade civil para divulgação e construção de nova postura da sociedade junto a problemática da infância, responsabilização criminal dos aliciadores, atuação enfática ao crime organizado e políticas públicas voltadas ao fortalecimento das famílias.

Instrumentos de Defesa dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes

109. Através da participação da sociedade civil conseguimos assegurar importantes instrumentos legais para subsidiar nossa ação. A Constituição Federal (1988), o Estatuto da Criança e do adolescente (1990), a Conferência Internacional dos Direitos das Crianças (1989 - ONU) Convenção Sobre Todas as Formas de Discriminação à Mulher (1995- ONU), Programa de Ação de Durban (2001 ONU), nas Convenções Internacionais 110 e 111 da OIT e na Convenção Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, entre outros tratados internacionais. No entanto o governo brasileiro negligencia as orientações legais das quais é signatário e formulador. A Unegro defende a participação popular como o mais eficiente instrumento de defesa dos direitos das crianças, dos adolescentes e da juventude. E conclama o movimento negro e outros movimentos sociais a denunciarem o descumprimento de compromissos, do governo brasileiro, junto a comunidade internacional e brasileira. Não devemos abrir mão de fazer valer as leis que visam contemplar positivamente a sociedade – evitando uma postura simplesmente legalista.


Caboclos, Inquices, Orixás, e Voduns, Mexeu com eles mexeu Comigo!

100. As religiões de matriz africanas e as afrodescendentes no Brasil são o foco principal da rearticulação das violências provocadas pelo racismo (eliminação etnocêntrica), pela discriminação (segregação física, política, social, econômica e cultural), e pelo preconceito (articulação do discurso de menor-valia das civilizações de ascendência africanas aportadas no país). Todas as formas de violência com recorte racial articulam-se atualmente no campo das religiões africanas, sem que a sociedade e o universo negro se sintam atingidos. Tal fenômeno se deve ao fato de, nestes séculos, os discursos e as práticas separaram as religiões africanas e afrodescendentes de suas matrizes civilizatórias originais e de seus produtores. Ataca-se a religião como se ela não estivesse vinculada a uma estrutura civilizatória, a vasta experiência humana construída no continente africano, e a um produtor, a população negra. As violências dirigidas às religiões africanas e afrodescendentes atingem todos os negros, independente de suas opções religiosas. Elas enfraquecem as ações e estratégias políticas de combate ao preconceito, à discriminação e ao racismo. Por isso, toda e qualquer ação dirigida contra as religiões de matrizes africanas e afrodescendentes devem merecer a mobilização dos negros, como parte da defesa de seu patrimônio humanístico e da luta radical contra a perpetuação do ciclo de reprodução de miséria e do extermínio que cerra a população negra nas áreas de carbonização de seus direitos humanos: Caboclos, Inquices, Orixás, e Voduns, Mexeu com eles Comigo!

110. Desde o século XIX os estudos das religiões de matrizes africanas no Brasil realizados por Raimundo Nina Rodrigues, Artur Ramos e Edson Carneiro consolidaram um paradigma que se reproduz nos vários estudos posteriores e marcam com traços indeléveis o perfil de menor-valia em relação à religião hegemônica: adoção do modelo “ideal” da religião católica apostólica romana – liturgia, organização sacerdotal, mitologia, ética e moral religiosa – para as análises comparativas e a mobilização de conceitos teóricos inadequados para os estudos das civilizações africanas.

111. As estratégias utilizadas em África contra as religiões tradicionais foram reinventadas no Brasil, com grande êxito, no início do processo de substituição da população negra pela população européia empobrecida, que veio ocupar o lugar do negro no “mercado de trabalho” recém inaugurado pela abolição. Esta noção de menor-valia das religiões de matrizes africanas e afrodescendentes sobrevive até a primeira metade do século 20, em especial na academia e nos fóruns de debate sobre o multiverso negro no país (Congresso Afro-Brasileiro de 1934 e 1937, realizados respectivamente em Pernambuco e Bahia). Os núcleos civilizatórios africanos foram esvaziados de suas significações e magnitudes históricas e políticas, e ordenados segundo o critério de hierarquização das mais complexas para as mais simples, de acordo com a métrica do denominado racismo científico, estabelecendo no topo a estrutura religiosa ioruba – civilização da África Ocidental onde se localizam a Nigéria, o Benin e o Togo - e na base a estrutura religiosa de matriz bantu – região ao sul do continente africano onde se localizam Angola e Moçambique, a exemplo do que se fazia entre “as raças” , onde as civilizações brancas ocupavam o topo da hierarquia racial e as negras, a base.

112. A violência perpetuada pela elite brasileira contra as estruturas religiosas de matrizes africanas tinha como objetivo a eliminação de uma civilização que se opunha, em especial no campo dos valores cosmológicos e civilizatórios, ao projeto de ocidentalização hegemônica, tendo como base os valores legados pela religião católica-cristã, almejadas pelas elites brasileiras, a partir de 1850. A perseguição contra os candomblés com seqüestro de instrumentos litúrgicos , prisão e espancamento dos líderes religiosos (realizadas pela polícia nos estados da Bahia, Alagoas, Pernambuco, Maranhão, Rio de Janeiro, em especial) tinha como objetivo desarticular as resistências às violências raciais contra a população afrodescendente que tinham na estrutura religiosa o suporte para suas ações políticas e sociais e a rearticulação de seus universos cosmológicos, sociais, culturais e políticos, esmigalhados pela violência racial. Com o tempo, essa violência fora transferida das religiões de matrizes africanas (candomblés ketu, jejê e bantu) para as religiões afrodescendentes (umbanda, quimbanda, batuque, candomblé de caboclo, entre outras estruturas) e o agente religioso principal da violência deixa de ser a igreja católica apostólica romana. Agora, os principais agentes da violência são as denominações neopentecostais, as denominadas igrejas eletrônicas.

113. Em franca desobediência ao diploma legal brasileiro (Constituição da República Federativa do Brasil), as igrejas eletrônicas reconstróem os discursos racistas, discriminatórios e preconceituosos erigido no século 19, tendo como base as teorias do darwinismo social, da antropologia criminal e da eugenia. As religiões de matrizes africanas e afrodescendentes são acusadas de primitivas, sanguinárias, destituídas de traços civilizatórios, anti-social e de adoração ao demônio, da mesma forma que os racistas do século fizeram em relação às civilizações africanas aportadas no Brasil. Esta trajetória mobilizou uma mecânica de separação das civilizações africanas das religiões e destas dos seus produtores, a população afrodescendente, permitindo que se ataque as estruturas religiosas de matrizes africanas e afrodescendente, sem que se vincule esta violência aos descendentes de africanos, produtores destas estruturas religiosas. As violências dirigidas contra as religiões de matrizes africanas e afrodescendentes no Brasil reeditam o discurso e a prática preconceituosa, discricionária e racista que imprimiram à vida dos descendentes de africanos um círculo de reprodução da miséria e do extermínio etnocêntrico.