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A luta continua

29/Jul/2012 Por




A foto data de 1983, a abolição da escravidão foi oficialmente assinada em 13 de maio de 1.888, ou seja, mais de cem anos separam os dois episódios. É inadimicível que em pleno século 21, muitas pessoas ainda sejam subjulgados através da sua raça, cor, crença, religião, ou seja qual denominação tenha. Que fique claro, que não são esses atributos que definem ou moldam o caráter e a moral de um individuo.Estudo realizado pelo instituto de São Paulo, coloca o DF na quinta posição nacional no total de assassinatos de afrodescendentes em 2010. A taxa é 60% maior do que a de brancos e pardos.Apesar de os fatos demonstrarem uma realidade dura e cruel, estamos conseguindo aos poucos mudar a consciência da população, mediante a várias conquistas efetivadas, mas ainda existe um grande caminho a percorrer, muitas lutas a serem travadas. Algumas conquistas, mesmo que pequenas e consideradas irrelevantes para algumas pessoas, tem um significado especial àqueles que sempre lutaram por uma sociedade mais justa e igualitária. Podem ser de cunho pequeno, mas que na sua essência revelam a grandiosidade da sua importância, como a implantação das cotas raciais e a criação do dia da Consciência Negra e do dia Internacional da Mulher Negra.

Muitas pessoas podem se perguntar, o por que data do negro? Porque data da mulher negra e não da branca? Ou o porque da implantação das cotas? A resposta é simples, as datas foram uma forma simbólica de conscientizar e mostrar a toda uma sociedade, a luta que o povo negro enfrentou em prol da liberdade, igualdade e direitos, que são inegociáveis. Que fique bem claro, que o conhecimento, a inteligência e o aprendizado não é baseado na cor, não é ela que define ou faz alguem melhor, mas infelizamente, foi necessário que se instituíssem as cotas, visando assim, que algumas pessoas que compoem a maior massa da população, fossem beneficiadas e pudessem de alguma forma terem acesso as Instituições de Ensino de qualidade, lugares na sua maioria conquistados pelos entitulados "brancos". O professor Sandro Cesar Sell, afirma: "O que os estudos têm mostrado é que a supremacia intelectual freqüentemente não é uma conquista, mas um presente genético ou a resultante de condições ambientais na qual o indivíduo tem pouca ou nenhuma influência (como o fato de ter nascido num lar intelectualmente estimulante). Então, será que realmente se está premiando os mais dedicados com as seletas vagas, quando se as atribui aos melhores classificados nos testes intelectuais? Ou se estaria simplesmente premiando os mais agraciados pela natureza ou acaso? Ora, muitos dos estudantes, de qualquer origem étnica, que não ingressaram nas universidades podem ter se esforçado muito mais do que aqueles que, por sua natureza específica, ambiente social e inteligência herdada, pouco se preocuparam com esses testes. Suas condições de partida (genéticas e ambientais) os colocaram naturalmente à frente. ". (10. SELL, Sandro César. Ação Afirmativa e Democracia Racial, uma introdução ao debate no Brasil, 1ª edição, Fundação Boiteux.)

Em outras palavras, quem se alimenta bem, vive em um lar feliz, que tem condições de frequentar uma boa escola e de qualidade, tem lazer, saúde, segurança, que são pré- requisitos básicos e essenciais, faz da criança um cidadão com uma capacidade melhor que de uma criança criada na favela, sem dinheiro, assistência, escolas boas, lazer, etc. E a realidade mostra que a grande parcela afetada, que passam por estas dificuldades são constituídos por negros. Infelizmente, algumas dessas necessidades básicas, que são direitos sociais, ficam a cargo dos governantes, que conforme a própria constituição federal, prevê que o Estado tem por obrigação suprir estas necessidades, em prol de uma sociedade mais igualitária e justa, o denominado "Wefare State" (Estado de bem estar social).As conquistas não pararam simplesmente nos fatos relatados acima, existem motivos ainda maiores para orgulho da população afrodescendente, que são bem mais visíveis. Hoje podemos vislumbrar com negros ocupando cargos que outrora nunca se imaginou. Exemplos fortes disso são: Joaquim Barbosa, o 1º ministro negro do Supremo Tribunal Federal - STF, e Barack Obama, eleito o 44º presidente dos Estados Unidos, considerada a maior potência econômica mundial. Pela primeira vez na história do Brasil, o censo indicou que a população negra e parda, é a maioria no país: 50,7% de um total de 190.732.694 pessoas. Mediante tal informação conclui-se que é necessário que mais negros possam assumir cargos, nas três esferas do poder. Precisamos de mais representação, e só a união entre nós, resultará em um equilíbrio dentro da nossa nação.

Historicamente, a população afro-descendente, desde a sua chegada ao Brasil, tem sido acometida por injustiças que, até os dias atuais, não foram sanadas. A abolição da escravatura não lhes deu nenhuma condição de sobrevivência como cidadãos, continuando os negros a viver em condições precárias, permanecendo à margem da sociedade.Apesar de continuadamente, lutarmos por um maior espaço na sociedade, é de se revoltar, quando deparamos com situações onde o próprio "povo negro", se discriminam entre si. Faz-se necessário mudar a cultura de um povo, de uma sociedade, mas isso é um processo contínuo, que deve-se começar primeiramente no meio da própria "raça negra", tendo em vista que o preconceito e a discriminação, ocorrem ali mesmo, dentro do grupo, onde o negro por muitas vezes julga o caráter do seu' irmão de cor", gerando assim a desconfiança, tendo em vista ser o produto de uma sociedade preconceituosa. Desta forma, como cobrar de uma sociedade de pensamentos muitas vezes "brancos", se o próprio negro não se valoriza, não se orgulha da sua raça, cor e cultura. É preciso que primeiramente mudem-se a forma de agir, dentro da sociedade que se engloba os denominados negros para que posteriormente cobre-se uma atitude por parte de toda uma sociedade, visto que essa é formada por diferentes grupos. É um caminho longo, com obstáculos a serem enfrentados, mas juntos podemos chegar bem mais ao longe.

Em suma, o racismo no Brasil é camuflado, mas perceptível, pois mantêm as desigualdades sócio-raciais em todos os âmbitos e, nesse sentido, é fundamental debater sobre essa questão em todas as esferas institucionais, inclusive nas escolas, uma vez essa instituição é tida como um dos principais locais formadores de opinião, podendo ser o local que formará o cidadão com consciência política.

Negros vamos se unir, a luta continua!