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Etnia Krenyê luta por território no Maranhão

19/Mar/2012 Por Gilderlan Rodrigues

O povo Krenyê vivia nas proximidades da cidade maranhense de Bacabal, quando tiveram foram deslocados, na primeira metade do século XX, devido aos conflitos com criadores de gado provenientes do Ceará. Conforme lembra Chico Krenyê, 72 anos: “Nossos pais tiveram que deixar nossa terra, como nós éramos crianças tivemos que acompanhar”.

A data exata da partida perdeu-se no sofrimento dos anos que se seguiram, porém os indígenas mais velhos lembram que foi no “tempo do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), quando Xerez comandava o órgão em São Luis”. Lembram que Xerez perguntou para onde eles queriam ir: se era para a Terra Indígena Governador, povo Gavião, ou Terra Indígena Krikati, do povo Krikati, ambas na região de Amarante do Maranhão. Ainda lhes foi oferecida a Terra Indígena Pindaré, povo Tenetehara/Guajajara, município de Bom Jardim.

Sem opção e com medo de serem extintos, foram obrigados a mudar para a Terra Indígena Pindaré, pois o SPI não apontou soluções para o problema. Lá casaram e viveram entre os Guajajara até a década de 1990, quando um grupo decidiu ir viver na Terra Indígena Governador, dos Gavião, na região de Amarante do Maranhão. Não ficaram muito tempo nesta terra e logo o grupo resolveu ir morar na Terra Indígena Rodeador, município de Barra do Corda. Fundaram uma aldeia com o mesmo nome da terra.

Por circunstâncias internas, deixaram a aldeia e foram morar no bairro Altamira ll (Piquizinho), na cidade de Barra do Corda. Viveram neste bairro até 2003, quando decidiram novamente voltar para a Terra Indígena Rodeador e lá fundaram a aldeia Pedra Branca. Idas e vindas incessantes, sem estar na terra de ocupação tradicional a qual foram expulsos pelo avanço da fronteira agropecuária.

Vínculos comunitários

Ao retornar para a Terra Indígena Rodeador, os Krenyê iniciaram o processo de construção inicial de uma nova aldeia, Pedra Branca – importante passo na caminhada do povo. A vida em comunidade fortalece a organização cultural há muito deixada para traz por conta do êxito constante vivido pelos Krenyê.

Seu Chico, um dos mais velhos do povo, nos fala das dificuldades que eles enfrentaram para construir a aldeia Pedra Branca. “Quando chegamos aqui nesta terra não tinha nada. Ficamos morando na beira do brejo que tinha muita tiririca. Ficamos cozinhando na lenha e enfrentando o frio durante a noite. Foi tempo de muito sofrimento, mas hoje estamos melhores”, afirma.

Com um espaço territorial “garantido”, o povo busca apoio para retomar a luta pelo seu território tradicional e o reconhecimento étnico por parte dos órgãos governamentais que os tinham como “extintos”. Desta forma, lideranças participam de reuniões, encontros e outros espaços promovidos por entidades que apóiam a luta do povo.

Fortalecidos e reconhecidos como povo existente, os Krenyê realizaram o primeiro encontro do povo na aldeia Pedra Branca, em junho de 2009. Contaram com a presença de outros indígenas vindo da Terra Indígena Geralda do Toco Preto, de Santa Inês, e da Terra Indígena Pindaré. O encontro, conforme os indígenas, foi significativo porque deu a oportunidade do povo se encontrar para conversar sobre sua história de luta e o desejo de retomar seu território tradicional.

Após o encontro, os Krenyê realizaram reuniões com antropólogos da Fundação Nacional Índio (Funai), iniciando o processo de discussão sobre o pedido de demarcação do território tradicional, hoje ocupado por não índios. As lideranças ressaltam também que a Funai tem dado o mínimo de assistência somente depois de muita luta em Brasília, com o apoio do Ministério Publico Federal (MPF). No entanto, apontam a necessidade do órgão se empenhar de forma comprometida com a causa da vida do povo Krenyê.

Vivendo na periferia

No processo de fortalecimento organizacional destaca-se, durante a caminhada do povo Krenyê, a aprovação de projetos que foram aprovados para contribuir com a luta do povo, proporcionando as condições necessárias para o enfrentamento da luta em busca do sonhado território.

No entanto, em 2010, logo após o sucesso do primeiro encontro, o povo teve que sair da Terra Indígena Rodeador, por conta de conflitos internos. Na periferia da cidade de Barra do Corda, vivem sujeitos a precárias condições de vida, ao preconceito, violência e dificuldade em manter a alimentação do grupo. Maria Krenyê explica: “Nós estamos vivendo somente com o apoio de nossa aposentadoria, porque não temos emprego. A cesta, quando vem cesta básica, não chega até nossas casas. Estamos vivendo assim”.

O povo Krenyê se encontra em uma situação bem diferente dos demais povos indígenas do Maranhão; é o único povo que não tem sua terra tradicional demarcada. Vivem desde a metade do século XX em terras de outros povos e nas periferias das cidades Barra do Corda, Santa Inês e Pindaré Mirim. A precária situação necessita de uma resposta urgente dos órgãos responsáveis pela demarcação do território tradicional dos Krenyê.

Com a vida na cidade, as lideranças manifestam preocupação com o futuro de seus filhos, que crescem de forma individual, sem as relações de coletividade do povo. “Olha nossos meninos: estão vivendo aqui na cidade, onde eles não querem mais ir trabalhar conosco, porque chega um amigo e chama-os para ir para outro lugar. Estamos com medo que nossos filhos possam cair na malandragem, porque é só o que eles estão vendo aqui na cidade”, explica o ancião Zé Índio.

A luta pela sobrevivência na cidade é muito dura, como enfatiza dona Maria Krenyê, após profundo silêncio: “Precisamos do chão que seja nosso, onde viviam nossos avós e pais; viver assim é muito penoso, porque não podemos viver tranqüilo. Você está vendo como é nossa situação, não temos nada, estamos aqui nessas casas e no meio da violência dos kupem (homem branco)”.

Podemos perceber, porém, que o povo Krenyê está firme e forte para continuar caminhando na luta, embora depois de muito sofrimento vivido. Desta forma, saímos com o coração cheio de esperança e de compromisso renovado; fortalecidos para continuar lutando para que os Krenyê possam encontrar a tão sonhada terra, onde corre leite e mel, e assim possam ter dias melhores.

Com CIMI




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